A arquitetura que deu vida ao novo Sesc do Centro de São Paulo

A arquitetura que deu vida ao novo Sesc do Centro de São Paulo
Vanessa D'Amaro |

Depois de quase quinze anos de espera, o Centro de São Paulo está perto de ganhar um novo Sesc.

O projeto nasceu de um plano urbanístico de 2011 para o Parque Dom Pedro II, que previa uma série de intervenções, pensadas por três escritórios de arquitetura e a FAU-USP, mas, até agora, só o Sesc saiu do papel.

Com obras concluídas, o equipamento deve ser inaugurado até o fim do ano e já desponta como um marco arquitetônico da paisagem local.

O Sesc Parque Dom Pedro II foi construído em um terreno de cerca de 9 mil m² onde antigamente estavam os edifícios Mercúrio e São Vito, originais da década de 1950, entre as avenidas do Estado e Mercúrio, vizinho à Zona Cerealista. 

Os dois prédios eram opções de moradia popular no centro, mas entraram em degradação ao longo dos anos e passaram a apresentar graves problemas estruturais. Após uma série de incidentes e discussões sobre o destino do local, a Prefeitura demoliu o Mercúrio em 2008 e o São Vito em 2011.

A arquitetura do novo Sesc ficou a cargo do escritório UNA Barbara e Valentim, um dos que compõem o coletivo responsável pelo plano urbanístico, feito a pedido da Secretaria de Desenvolvimento Urbano.

“O Sesc foi pensado como um equipamento cultural para dar vida nova a esta região,” a arquiteta Fernanda Barbara, sócia do UNA, disse ao Metro Quadrado. 

A nova unidade começou a tomar forma em 2015, com uma ocupação provisória do terreno pelo Sesc. As obras, por sua vez, começaram oficialmente entre 2020 e 2021.

Com mais de 33 mil m² de área construída, o edifício foi erguido em concreto e estrutura metálica, e a construção chama atenção pelos volumes sobrepostos que contornam uma espécie de bosque triangular, com paisagismo do escritório SOMA Arquitetos.

“Esse jardim vai ter várias árvores de pau-brasil, e permite também que, num lugar onde você tem o barulho, a fumaça das avenidas e o cheiro do rio, tudo possa se abrir para um espaço super silencioso, onde parece que você está em outro planeta,” diz Fabio Valentim, sócio de Fernanda.

A relação com o entorno também orientou a implantação do edifício. Os arquitetos criaram um térreo aberto, sem muros, concebido como uma grande praça pública que convida quem passa pela rua a entrar. A unidade também se abre para a praça São Vito, em homenagem ao edifício antigo.

Para manter a conexão com os prédios históricos da região, o projeto tem terraços com vistas ao longo de toda a extensão. Dos andares superiores, é possível observar tanto o Mercado Municipal, em frente, quanto o Palácio das Indústrias (atual Museu Catavento), ao fundo.

O projeto também incorporou soluções sustentáveis, como um sistema de captação e armazenamento de água da chuva. O edifício já até recebeu prêmios nacionais e internacionais, entre eles o Holcim Awards (2025), na categoria de construção sustentável. 

A distribuição dos espaços, por sua vez, busca reunir cultura, educação e lazer – atividades que caracterizam as unidades do Sesc na capital. No térreo, uma praça coberta reúne oficinas, cafeteria e um teatro flexível.

“Esta praça é também o foyer do teatro. E o teatro, que é o programa cultural principal do prédio, tem uma característica super interessante: ele se abre totalmente para a cidade, que se torna um cenário vista do palco,” diz Fabio.

No primeiro andar, ficam a tradicional comedoria do Sesc, a biblioteca e o espaço infantil. O segundo pavimento abriga a área de convivência e um grande terraço com espelho d’água, que remete àqueles do Sesc 24 de Maio. Já os andares superiores concentram o complexo esportivo, com academia, quadras, piscinas e vestiários para os credenciados.

Esta intenção de conectar o edifício com o entorno está ligada a uma questão mais ampla de urbanismo: como recuperar a relação da população com uma região que está entre as origens de São Paulo, mas foi profundamente transformada pela infraestrutura viária. 

“Esse é historicamente um lugar de comércio na cidade. Você tinha antigamente os barcos navegando pelo rio Tamanduateí até o Porto Geral, que depois vira a Ladeira Porto Geral,” diz Fabio. 

Conhecida como Várzea do Carmo, a área alagadiça ao redor do rio Tamanduateí conectava o centro histórico à Zona Leste, que avançava em seu processo de industrialização no início do século 20. Em 1922, parte da região foi transformada em parque e ganhou um projeto paisagístico do urbanista francês Joseph-Antoine Bouvard.

A paisagem mudou radicalmente a partir do fim da década de 1960, quando a implantação de um sistema viário ocupou grande parte da área verde original. “A partir de 1968, é criado esse sistema viário completamente violento ali,” afirma Fernanda.

O rio canalizado, os galpões, os edifícios e os viadutos passaram a marcar a paisagem. Considerada um nó viário, a área também recebeu uma estação de metrô, duas estações de uma linha de ônibus expresso e, na década de 1990, um terminal de ônibus.

O terminal, aliás, é outro exemplo de como a área acabou se transformando em um emaranhado de soluções temporárias. “O terminal de ônibus é feito num lugar que é provisório, e é um projeto do Paulo Mendes da Rocha. Ele o criou como algo provisório, mas virou um provisório definitivo,” diz Fabio.

Foi diante desse cenário que a FAU-USP e o coletivo de escritórios de arquitetos (formado também por H+F Arquitetos e Metrópole) elaboraram o plano urbanístico, apresentado em 2011. 

A proposta previa recuperar as áreas verdes originais do parque, além de melhorar a conexão entre construções históricas como o Mercado Municipal, a Casa das Retortas e o Palácio das Indústrias. A ideia era tornar a região mais agradável e acessível para a população.

O fato de a unidade do Sesc ter sido a única do plano a sair do papel, diz Fernanda, não significa que o edifício tenha sido concebido como uma aposta em uma futura transformação do Centro de São Paulo. O projeto foi desenvolvido para a configuração atual da região, sem depender de mudanças utópicas na infraestrutura viária.

“Esse é um projeto feito para aquele lugar do jeito que ele é hoje. Não é feito para se um dia esse lugar melhorar, se um dia o viaduto sair... Ele lida com a realidade do lugar e indica potenciais de outras formas de convivência e de usufruto do espaço, menos segmentadas, mais harmoniosas,” diz a arquiteta.

O crédito da imagem no topo é de Leonardo Finotti.

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