No Centro do Rio, uma rua de lojas vazias quer novos moradores

No Centro do Rio, uma rua de lojas vazias quer novos moradores
Thaís Soares |

Na Rua da Carioca, no Centro do Rio, as lojas de instrumentos musicais e o Cine Íris – de filmes pornô – resistiram enquanto boa parte dos vizinhos fechava as portas ao longo da última década. 

Com cerca de 40 das 60 lojas vazias, a rua começou a receber uma atenção especial da Prefeitura em 2023, quando o Município decidiu transformar parte dos comércios desocupados em um polo cervejeiro, oferecendo aos novos donos até R$ 200 mil para reformas e R$ 15 mil mensais para ajudar nas despesas.

Depois de atrair sete cervejarias e passar por obras de requalificação urbana, que alargaram as calçadas para receber os novos frequentadores, a Rua da Carioca vai ganhar uma segunda rodada de incentivos.

A Prefeitura criou o Distrito Especial Reviver Rua da Carioca para levar a recuperação além dos bares, atraindo outros negócios e ajudando a restaurar os casarões históricos acima das lojas.

A Sérgio Castro Imóveis, uma das imobiliárias mais tradicionais do Centro, está negociando entre quatro e cinco imóveis na Rua da Carioca com pequenos investidores interessados em transformar os andares superiores dos sobrados históricos em apartamentos compactos, aproveitando a onda do short stay.

Um dos atrativos para esses investidores está no custo de manutenção dos sobrados históricos. 

Diferentemente dos edifícios comerciais mais modernos, eles não têm despesas de condomínio e ainda podem conseguir isenção de IPTU, desde que atendam às exigências de preservação do patrimônio.

“O sobrado é a bola da vez, porque o custo de ocupação dele, tirando o aluguel, se ele estiver bem tratado e adequado, é zero,” Cláudio André de Castro, diretor da imobiliária, disse ao Metro Quadrado.

A Rua da Carioca começou a perder parte de seu comércio em 2012, quando um fundo ligado ao Opportunity comprou 18 sobrados que pertenciam a uma ordem religiosa, e os aumentos de aluguel que vieram depois contribuíram para a saída de lojistas tradicionais. 

A recessão econômica de 2015 e 2016 e, mais tarde, a pandemia aceleraram o esvaziamento.

Os imóveis fazem parte de um conjunto arquitetônico protegido desde 1985, que ajudou a preservar a aparência da rua mesmo quando o comércio perdeu força. 

As exigências de conservação, porém, também pesam sobre os proprietários, que precisam adaptar os casarões às necessidades de novos negócios sem descaracterizar as construções.

A Rua da Carioca é uma pequena amostra da transformação que vem tomando conta do Centro do Rio, onde a Prefeitura tenta devolver moradores a uma região que passou décadas perdendo fluxo de pessoas depois do expediente.

No Porto Maravilha, uma leva de empreendimentos residenciais está mudando a paisagem de uma região que passou anos marcada por terrenos vazios e antigos galpões, enquanto, no Centro Histórico, edifícios que antes abrigavam escritórios começam a ganhar uma nova vida com apartamentos retrofitados, impulsionados pelos incentivos do Reviver Centro.

O secretário de Desenvolvimento Econômico do Rio, Osmar Lima, vê a recuperação do Centro como um processo que vai se espalhando de um endereço para outro. 

Além da Carioca e da Rua do Teatro, a Prefeitura acompanha a transformação da Rua do Senado e prepara um projeto para a Avenida Chile, apostando na combinação de investimentos públicos e privados para recuperar diferentes partes da região.

“A Rua da Carioca tem essa capacidade, ela irradia para o seu entorno. A valorização imobiliária vem junto com isso. É um espaço urbano melhor, mais opções de lazer e de consumo que valorizam de alguma forma a região,” disse ele.

Na Rua do Teatro, por exemplo, prédios que passaram por desapropriação e leilão estão agora nas mãos de investidores interessados em recuperá-los.

A própria Sérgio Castro Imóveis comprou sete prédios na Rua do Teatro, onde pretende desenvolver 43 apartamentos sobre sete lojas.

O Centro parece ter finalmente interrompido sua trajetória de esvaziamento, embora a melhora ainda seja tímida, na avaliação de Raphael Zanola, sócio da incorporadora RJDI.

Com a expansão dos empreendimentos residenciais, ele acredita que o Centro ainda tem espaço para ganhar um papel maior no mercado imobiliário carioca, aproveitando a infraestrutura existente para receber novos moradores e se tornar uma alternativa às regiões onde historicamente se concentram os lançamentos, como a Zona Sul e a Barra da Tijuca.

“Cada projeto gera uma luz no Centro. E eu vejo como essa região pode aproveitar esse momento e ser uma nova fronteira para o desenvolvimento imobiliário do Rio,” disse Zanola.

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