As utopias urbanas de Eduardo Longo, o arquiteto da Casa Bola

As utopias urbanas de Eduardo Longo, o arquiteto da Casa Bola
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Se as utopias urbanas de Eduardo Longo tivessem saído do papel, a Casa Bola — seu projeto mais audacioso — seria um protótipo para um condomínio.

Suspensas e enfileiradas, as esferas ficariam conectadas por uma estrutura central, capaz de atravessar ruas e avenidas — uma visão que parece saída de Guerra nas Estrelas.

“As pessoas conhecem a Casa Bola, mas não conhecem essa ideia do condomínio,” o arquiteto disse ao Metro Quadrado.

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Embora pareça futurista, a proposta tem quase 50 anos. Nasceu junto da Casa Bola, erguida artesanalmente sobre sua residência e seu escritório, entre 1974 e 1978, na Av. Faria Lima.

Morando entre as ruas Amauri e Peruíbe desde antes da criação da avenida, no fim da década de 1960, ele acompanhou de perto a transformação da região.

Viu um bairro de casas baixas, em um cenário quase suburbano, se tornar o principal eixo financeiro de São Paulo, repleto de edifícios corporativos. “No início, dava para enxergar a Avenida Paulista, o Conjunto Nacional e até o Pico do Jaraguá daqui,” ele diz.

Mas não alimenta muito nostalgia. “Eu sou a favor da verticalização da cidade. Um elevador é muito mais econômico do que o transporte horizontal.”

Na Rua Amauri, onde fica a entrada original da sua casa, Longo conta que lojas e restaurantes deram lugar recentemente a um condomínio residencial. 

“A vista antes era horrorosa, um monte de chaminés e cheiro de comida. Agora, eu ganhei um prêmio, que foi essa maravilha deste prédio do Isay Weinfeld aqui do lado, construído pela Idea Zarvos.”

Foi desse lugar que surgiram algumas de suas propostas mais radicais para a cidade. Entre elas, estruturas suspensas com apartamentos ou escritórios acima das ruas — ideia que ele visualiza para a própria Faria Lima.

Esse tipo de solução, segundo o arquiteto, poderia liberar áreas para jardins públicos, praças e espaços de convivência.

“Eu espero que essa separação rígida entre o público e o privado seja eventualmente diluída, para uma pessoa poder comprar um espaço em cima da rua. Isso iria facilitar muitas coisas,” afirma.

Longo leva a proposta tão a sério que chegou a desenvolver estudos para outras localidades de São Paulo.

“Eu pensei em um projeto para a avenida Vital Brasil, no Butantã. Havia ali um quarteirão cheio de casinhas, e depois ele ficou cheio de prédios. Imaginei esse quarteirão ocupado por um só edifício longitudinal”, diz. “Como se os apartamentos ficassem deitados acima da rua e a pessoa pudesse subir com o carro e tudo.”

O que falta para isso acontecer? “Malucos! Faltam malucos!” brinca.

Muitas dessas “utopias”, como chama Longo — pensadas a partir da observação direta da cidade — aparecem agora reunidas em uma ala com curadoria de Fernando Serapião na mostra Aberto.

A quinta edição da plataforma de exposições – fundada por Filipe Assis e com curadoria de Assis, Claudia Moreira Salles e Kiki Mazzucchelli – ocupa até 31 de maio a Casa Bola e o galpão anexo do arquiteto. Reúne 60 obras de cerca de 50 artistas brasileiros e internacionais. 

Além da Casa Bola, a Aberto Rua se estende para a própria Faria Lima, com instalações de artistas contemporâneos ocupando os canteiros centrais da avenida.

“Acho que esta casa tem uma arquitetura que cativa, esse estilo retrofuturista. Os artistas piraram com a história da Casa Bola,” afirma Filipe Assis.

Longo se diz impressionado com a recepção do público. “Nunca fez tanto sucesso. Eu nem entendo por que as pessoas estão gostando tanto. Não era assim,” diz, após autografar livros e tirar fotos com visitantes.

Criada artesanalmente com tubos de aço reciclados, a Casa Bola foi pensada como um experimento.

“Na época, divulgaram como um projeto de moradia popular. Mas nunca foi essa a ideia. Era uma maquete que eu fiz para desmontar depois. No fim, acabei usando a argamassa armada, que é mais definitiva,” explica.

Material comum na construção de barcos, a argamassa armada é leve e resistente. Todo o trabalho foi feito à mão, aos poucos, pelo próprio Longo, que deu forma aos ambientes da casa.

O arquiteto também criou eletrodomésticos e móveis usando o mesmo método, já que peças convencionais não caberiam nesses espaços.

“O que eu queria era criar um módulo com a menor quantidade de material possível. E nenhum volume é mais leve, eficiente e perfeito do que uma esfera,” afirma.

Quando a obra ficou pronta, Longo se mudou para a Casa Bola com a família. Permaneceu ali por mais de 40 anos e, recentemente, voltou a morar na pequena casa no primeiro nível do terreno.

O arquiteto mantém planos concretos para o imóvel nos próximos anos. Ele sonha em incorporar o terreno vizinho e transformar o galpão anexo, com entrada na Faria Lima, em um pequeno edifício com uma rampa ajardinada ao longo de toda a construção.

Assim, o pedestre poderia caminhar até o topo — o que, segundo ele, seria um ótimo exercício físico.

“Essa é uma ideia bastante pé no chão, sem nenhuma dificuldade técnica ou legal. Quero fazer um condomínio onde a calçada vai subindo por fora e chega às portas dos apartamentos. O pedestre vai caminhando e passando na frente das janelas,” diz.

Longo idealizou esse projeto observando a rua de sua sala de estar — no primeiro piso, abaixo da Casa Bola.

Ali, há uma grande fachada espelhada. O que o pedestre não vê é que, do lado de dentro, tudo é envidraçado. O arquiteto gosta de sentar ali e se sentir na rua, junto das pessoas.

“Quando uma pessoa mora em um condomínio, a vida é toda lá embaixo. Com essa proposta, não é assim: ela sobe pela própria calçada até o apartamento. É uma ideia muito viável, não é? Não sei por que ainda não fizeram nada igual.”

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