Cais das Artes: o legado de Paulo Mendes da Rocha para a sua Vitória

Cais das Artes: o legado de Paulo Mendes da Rocha para a sua Vitória
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Foram quase 20 anos até sair do papel o único projeto de Paulo Mendes da Rocha para a sua terra natal.

Cinco anos depois da morte do arquiteto, que o idealizou em 2007 por encomenda do Governo do estado, a cidade de Vitória acaba de dar início à operação do complexo cultural Cais das Artes.

Localizado na Enseada do Suá, perto do porto, o complexo ocupa uma esplanada aterrada de 30 mil m² e reúne uma praça, um museu e um teatro desenhado para receber óperas e espetáculos de dança.

Os dois edifícios se valem de uma arquitetura contemporânea marcada pelo concreto armado e ficam elevados do solo, garantindo um vão livre e a vista desimpedida para a baía de Vitória, o Convento da Penha e a cidade de Vila Velha.

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A intenção do governo capixaba era criar um espaço cultural de grande porte capaz de entrar no circuito nacional e internacional de arte.

Quando foi procurado, Mendes da Rocha havia acabado de vencer o Pritzker – só ele e Oscar Niemeyer receberam o prêmio máximo da arquitetura entre os brasileiros – e ficou animado com a possibilidade de deixar um legado para a cidade onde passou sua infância.

Para se juntar a ele no projeto, Mendes da Rocha convidou Gustavo Cedroni e Martin Corullon, os sócios do Metro Arquitetos, com quem já havia trabalhado em outras obras culturais.

Enquanto desenvolviam o Cais das Artes (nome proposto pelo próprio PMR), os três também estavam envolvidos no projeto do Museu Nacional dos Coches, em Lisboa – ambos pautados pelas relações com as águas: o primeiro à beira de um braço de mar, o segundo, à beira de um rio.

O Cais das Artes também se aproxima do projeto português na forma como se conecta ao espaço urbano, propondo uma área de livre circulação no entorno para a população ocupá-la.

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“O Paulo queria evitar a ideia de um grande prédio que tivesse tudo dentro. Então, já de cara, decidiu separar os volumes de acordo com a função e criamos uma espécie de tríade,” Martin disse ao Metro Quadrado.

Estruturado por duas grandes vigas paralelas em concreto armado, o museu do Cais das Artes ganhou a escala de um navio — 150 m x 20 m — algo intencional e poético, já que o complexo cultural é vizinho do porto.

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O desenho arquitetônico também propôs um prédio elevado a três metros do solo, com apenas três apoios afastados entre si por 20 metros.

Para Martin, esse é o grande trunfo do trabalho. “Do ponto de vista da arquitetura, essa escala é surpreendente: pensar que há três apoios para um edifício grande, capaz de sustentar centenas de obras de arte e centenas de visitantes,” diz.

Nesse prédio central, as salas expositivas ficam distribuídas em três níveis principais, com iluminação natural indireta garantida por caixilhos inclinados, com janelas com aberturas menos convencionais.

Enquanto a maioria dos arquitetos optaria por grandes vãos para deixar a paisagem invadir os interiores, Mendes da Rocha desenhou recortes menos óbvios, com a intenção de garantir ângulos únicos e uma entrada de luz filtrada — e, como descreve a dupla, impactante.

Já o teatro, com capacidade para 1,3 mil espectadores, ganhou duas galerias laterais que concentram circulações, áreas técnicas e camarins. O espaço central reúne a plateia, os balcões, o palco e as coxias. 

Assim como o museu, o edifício também parece flutuar. Já as áreas técnicas sob o palco e o restaurante — que se abre para um passeio coberto junto ao mar — atingem o solo e se apoiam em pilares implantados diretamente na água.

Toda a composição é articulada pela praça pública que conecta os dois volumes.

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Como Mendes da Rocha acreditava que a vista e o acesso ao mar deveriam ser um direito público, o espaço funciona como uma extensão da orla.

“Essa praça acaba servindo como uma espécie de abrigo do sol e da chuva, porque pode sediar todo tipo de manifestação cultural,” disse Gustavo.

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O projeto executivo foi feito entre 2007 e 2009, e as obras começaram em 2010. Mas por impasses contratuais com as construtoras que assumiram o trabalho, tudo foi paralisado por mais de uma década.

A retomada aconteceu há menos de dois anos e, dado o porte da construção — que custou cerca de R$ 183 milhões ao Governo do  Espírito Santo — Martin e Gustavo precisaram revisitar o projeto.

“O que eu acho incrível é que esse é um projeto que resistiu bem todos esses anos,” disse Gustavo.

“Apesar de ter uma estrutura impressionante, ela é simples, então as atualizações foram pequenas,” complementa Martin.

As poucas mudanças foram principalmente tecnológicas, como automações elétricas ou luminotécnicas.

E relembrar as soluções propostas por Mendes da Rocha também animou a dupla a retomar o trabalho.

“Foi surpreendente revisitar o projeto, porque ele segue muito fiel à proposta original, com soluções que fogem do convencional e do que a gente vê normalmente hoje no Brasil, principalmente em obras do mercado imobiliário,” disse Gustavo.

“Esse é um projeto atemporal, com materiais estruturais resistentes. E ele tem características muito interessantes, como o piso de ladrilho hidráulico instalado no teatro inteiro.”

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O complexo cultural abre oficialmente em março, apesar de já estar com programação de inauguração desde o fim de janeiro.

Neste primeiro momento, a Secretaria de Cultura do Espírito Santo preparou uma programação voltada à música, com shows ao ar livre. O museu também já organiza suas primeiras exposições, enquanto o teatro tem previsão de inauguração no segundo semestre.

Para os arquitetos do Metro, o que torna o Cais das Artes único é a maneira como o complexo condensa muitas das ideias — e da própria filosofia — de Mendes da Rocha.

“O que marca esse projeto é a generosidade dos espaços, algo que as cidades andam perdendo. Acho que é uma lição de arquitetura,” disse Martin.

“A arquitetura hoje está muito ligada à imagem,” complementa Gustavo. “Esse projeto do Cais das Artes revela uma outra maneira de pensar: ele discute a cidade, a maneira como a gente se relaciona com o espaço público.”

E ambos veem na conclusão do trabalho um aspecto nostálgico e afetivo. “É um resgate da experiência de trabalhar com o Paulo, da visão abrangente dele sobre arquitetura e vida,” disse Martin.

“Quando a gente revê o projeto,” disse Gustavo, “só sentimos saudades dele.”

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