Em acordo com o Jockey, Rio leva um ícone de Lúcio Costa

Em acordo com o Jockey, Rio leva um ícone de Lúcio Costa
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O processo de revitalização do Centro do Rio ganhou um novo impulso com o acordo que a Prefeitura fez para encerrar a dívida bilionária do Jockey Club.

Como parte do acerto, um prédio de 12 andares projetado por Lúcio Costa nos anos 1950 foi entregue pelo Jockey à Prefeitura, que pretende usá-lo como mais uma âncora da requalificação da região central da cidade, já em curso com o Reviver Centro, o programa que estimula retrofits de prédios comerciais antigos.

Com 82,5 mil metros quadrados de área útil, o imóvel foi no passado a sede do Jockey e está desocupado há anos, gerando custos de R$ 3 milhões por ano à associação.

O Rio não descarta uma revenda do ativo para o setor privado, mas ainda não definiu qual será o seu destino. É improvável, no entanto, que um leilão seja realizado, como tem ocorrido com outros imóveis públicos.

“Em um leilão, poderia haver uma depreciação de valor muito grande,” Osmar Lima, o secretário de Desenvolvimento Econômico do Rio, disse ao Metro Quadrado.

Osmar Lima ok 1Por ser um imóvel de porte grande, com espaço para escritórios, restaurantes, eventos, lojas e estacionamento, o secretário entende que o melhor caminho será o que ele chamou de “estruturação imobiliária”.

Nesse modelo, a Prefeitura pode seguir dona do ativo e ter parceiros do setor privado na operação.

“Poderíamos dividir o imóvel em várias partes, com alguém para explorar a parte comercial, alguém para o restaurante, alguém para fazer a reforma, e com operações financeiras que não sejam dispendiosas.”

Uma outra possibilidade levantada no passado pelo prefeito Eduardo Paes seria usar o imóvel para abrigar a sede dos BRICS.

“Ali pode ser a sede de várias coisas, é um prédio muito imponente, super icônico, eu não descartaria nenhuma possibilidade,” disse o secretário.

“Nós enquanto cidade estamos prontos para sermos desafiados, mas o uso do imóvel vai depender mais do mercado.”

O projeto de Lúcio Costa foi aprovado no mesmo ano do concurso do Plano Piloto de Brasília (1956), e o prédio foi construído a duas quadras do Palácio Capanema (o antigo Ministério da Educação e da Saúde), um marco da arquitetura nacional e assinado também por ele e por sua equipe, que incluía o jovem Oscar Niemeyer.

Hoje, o Jockey estima que o ativo demandaria um investimento de mais de R$ 100 milhões em reformas.

No acordo que envolveu o imóvel, o Rio deu um desconto ao Jockey de 85% em cima de uma dívida de R$ 1,9 bilhão em impostos, diminuindo o montante para R$ 280 milhões.

O valor reduzido será quitado com o imóvel (avaliado em R$ 250 milhões) e o parcelamento do restante.

O advogado Carlos Henrique Bechara, o sócio do Pinheiro Neto que assessorou o Jockey, disse ao Metro Quadrado que o valor original da dívida foi calculado com base no período entre 1990 e 2023, o que explica o montante bilionário.

“Esse valor era muito alto e a base de cálculo estava totalmente inflada,” disse.

A defesa do Jockey apresentou um novo cálculo, que mais tarde seria aceito pela Prefeitura, com a condição de pagamento com o imóvel.

No mercado, o alto desconto na dívida da associação se justificaria pela gama expressiva de possibilidades de uso do imóvel, dada sua vocação mista, tamanho do ativo, localização única e a assinatura de um arquiteto com um peso histórico.

“Essa escala e essas características tornam a análise mais complexa do que um simples comparativo de preço por metro quadrado,” disse Maria Eduarda Harriot, fundadora da consultoria imobiliária Bel Radar.

“A transação não deveria ser analisada apenas como uma dação em pagamento de dívida. Ela é um sinal de que o mercado — e o poder público — reconhecem que o Centro do Rio está mudando de patamar.”

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