PUNTA DEL ESTE – A sede da prefeitura de Punta del Este fica em um prédio simples, de dois andares, com telhado de madeira.
Dos corredores que levam até sua sala, o prefeito Javier Carballal consegue ver subindo ao lado uma torre de 20 andares, num contraste que simboliza o momento que vive o balneário uruguaio.
Conhecida pela aura de exclusividade, a cidade registra uma onda de novos projetos, que inclui edifícios bem mais altos do que antes e uma série de novos bairros planejados, muitos deles ligados ao esporte.
O prefeito, no entanto, não quer que a expansão saia do controle. Prefere que Punta mantenha sua essência.

“Se não, nos transformamos em Miami ou em Nova York, e seguramente nossos atrativos são a natureza, a amizade, a família,” ele disse ao Metro Quadrado.
No cargo desde 2020, Carballal se reelegeu em 2025, pelo Partido Nacional, de centro-direita. Nasceu e cresceu na cidade e, desde jovem, trabalha na Carniceria Oasis, o açougue da família.
Na conversa, falou ainda sobre os planos do governo para atrair mais moradores que fiquem o ano todo e analisou o impacto de empreendimentos como o novo hotel do Fasano e as torres da Cipriani, que vão superar 300 metros de altura.
Como vê o futuro do crescimento de Punta?
O desafio é fazer com que o crescimento seja ordenado e equilibrado. Alguns bairros, como Cantegril, San Rafael e El Golf refletem a identidade de Punta del Este. São bairros com muitos bosques, casas com grandes áreas verdes e 1.500 a 2.000 m² de construção.
Por outro lado, há o aumento das torres e dos bairros privados. É preciso trabalhar para que o crescimento seja equilibrado, porque isso vai agregar valor. Se não, nos transformamos em Miami ou em Nova York, e seguramente nossos atrativos são a natureza, a amizade, a família.
O intendente Miguel Abella [governador de Maldonado, departamento que inclui Punta] está trabalhando em um plano de ordenamento e em regras claras, pois isso eleva o valor da terra. Hoje, já se está planejando 2040. Se o crescimento for desordenado, todas as soluções serão ineficazes e caríssimas depois.
A cidade está recebendo novos projetos de branded residences internacionais. Qual é a importância deles para Punta?
Cipriani e Fasano são marcas internacionais que posicionam nosso destino, significam visitantes e trabalho durante todo o ano, e elevam o nível de qualidade dos serviços.
É algo similar ao que aconteceu com o Conrad [aberto em 1997], que fez com que os outros hotéis avançassem, melhorassem os serviços, a infraestrutura, o ar-condicionado, um monte de coisas que não eram usadas antes porque se trabalhava só 60 dias por ano.
Quando o Conrad abriu, trazendo voos charter do Brasil e da Argentina, elevou a qualidade de todos os hotéis e trouxe mais atividade, porque as pessoas vinham ao Conrad, mas aproveitavam os serviços da cidade.
Há questionamentos sobre a altura do Cipriani, cuja primeira torre atingirá 55 andares. Há intenção de ter edifícios mais altos na cidade?
Não gostamos muito da altura, mas entendemos que neste projeto não é somente o edifício, mas o todo. Foi um caso específico. Hoje, a posição do intendente Abella é respeitar a normativa.
Será construída uma das torres mais altas da América do Sul, mas isso também está ligado à recuperação de um edifício emblemático em Punta del Este.
O San Rafael está muito melhor do que estava, porque faltava uma ala ao hotel. Naquele momento da construção, houve falta de ferro por causa da Segunda Guerra Mundial, e o edifício era construído em pedra, tijolo e madeira.
Eu era contra o projeto anterior, que trazia dois edifícios cruzados, por conta do tamanho que representava. Não sou muito favorável a exceções para a construção, mas temos que reconhecer que era a maneira de o investidor tornar rentável o que estava propondo.
Como todo ícone, no começo é uma coisa de que as pessoas não gostam. O exemplo claro é a Torre Eiffel de Paris. Quando a fizeram para a exposição mundial, queriam derrubá-la no dia seguinte.
O que a cidade tem feito para atrair mais moradores que ficam o ano todo?
Apesar de a alta temporada continuar sendo o mais importante em termos de geração de recursos, há crescimento na educação, na saúde e na construção.
Hoje o município está voltado para as pessoas que vivem o ano inteiro. Há condições geradas pelo governo local e nacional para facilitar que as pessoas venham investir e passem da segunda para a primeira residência.
Há, também, segurança jurídica e sanitária, que foi o que nos diferenciou na América do Sul. A pandemia deu uma oportunidade e o Uruguai a aproveitou. A população viu naquele momento a qualidade de vida, o ponto mais forte que temos em Punta del Este.
Quantas pessoas vivem aqui durante todo o ano?
A população que vota e que vive o ano inteiro está em torno de 12 mil pessoas em Punta del Este, e de cerca de 20 mil quando se fala da Grande Punta, que inclui áreas como La Barra, José Ignacio e Punta Ballena.
Esse número tem crescido, e temos dois parâmetros. O primeiro são as escolas. Quando as matrículas crescem tão exponencialmente como nos últimos quatro ou cinco anos, indica que as famílias estão se estabelecendo.
O outro exemplo é que muitos comércios fechavam durante o ano. Hoje, são poucos os que abrem apenas na alta temporada. Calculo que mais de 90% operam o ano todo.
Os comércios passaram a ser rentáveis no inverno. Isso permitiu duas coisas fundamentais: manter o serviço e os trabalhadores durante todo o ano. Talvez não com o salário que tinham quando trabalhavam apenas na temporada, que era muito mais alto, mas, ao trabalhar o ano inteiro, isso dá às famílias outro tipo de renda e de segurança.
Há edifícios que tinham 5% de ocupação. Hoje, temos prédios de 150 apartamentos que têm 50, 30 ocupados, e isso se vê durante a semana. Numa segunda ou terça-feira, quando você dá uma volta pela rambla e vê edifícios com todas as luzes acesas, algo que não acontecia há 10 anos. Foi de 2022 em diante.
Qual é o perfil das pessoas que estão vindo morar aqui?
O fluxo mais forte é de pessoas de Montevidéu. Depois, a comunidade argentina e do Brasil. Há muitas nacionalidades e isso se vê nas escolas. Há americanos, russos, ucranianos, espanhóis, equatorianos, colombianos, chilenos.
O que está acontecendo no mundo, como a instabilidade na Europa e nos EUA, a guerra da Ucrânia, do Oriente Médio, faz com que Punta seja um ponto para onde as pessoas olham.
Há muitos trabalhadores na cidade que atuam de forma remota?
Sim. Há gente que vai trabalhar todos os dias em Montevidéu, a uma hora e meia de carro. E há outros que vêm de segunda, quarta e sexta, mas escolheram Maldonado e Punta del Este como primeira residência.
O World Trade Center [prédio de zona franca, para empresas que prestam serviços ao exterior] está permitindo que os jovens qualificados não tenham que ir para outro lugar e possam trabalhar daqui para o mundo.
Há incentivos públicos para investimentos, como a construção de novos bairros e escolas?
Sim, incentivos nacionais e departamentais. Por exemplo, termina-se uma torre e só se passa a pagar impostos depois que o apartamento é vendido.
Tanto os municípios quanto a intendência trabalham muito na capacitação. Em Punta del Este, temos 45 oficinas para diferentes idades e funções. A capacitação é fundamental para que, quando os empreendimentos chegarem, não seja necessário buscar trabalhadores em outros lugares.
Como avalia a vinda de brasileiros para Punta, para morar e investir?
O avanço dos brasileiros em direção ao Uruguai, a Maldonado, a Punta del Este, é cada vez mais importante. É um público que, em sua maioria, é do Rio Grande do Sul, de lugares como Canela, Gramado, Porto Alegre, e também de São Paulo.
Hoje, por meio de investimentos e por meio de marcas como o Fasano, o Brasil tem uma presença muito importante, não somente em Maldonado, mas no Uruguai.
As condições de segurança jurídica e institucional fazem com que Punta seja um destino para investir. E temos segurança nas ruas, o que para um brasileiro significa vir com seu carro, com seu relógio e sair caminhando sem que ninguém o incomode.




