O ‘au revoir’ dos parisienses à Champs-Élysées e ao ‘Triângulo de Ouro’

PARIS — No terraço do Plaza Athénée, o thé definitivamente virou tea.
Com forte demanda estrangeira, os preços dos imóveis na Champs-Élysées e no “Triângulo de Ouro” — o microbairro adjacente à avenida — estão se tornando proibitivos para os parisienses, que assistem à transformação da região ao longe.
O capital externo tem avançado tanto no mercado residencial quanto no comercial, o que tem resultado em ruas principais cada vez mais luxuosas e concorridas enquanto o “recheio” do bairro vai perdendo gradualmente sua vida.
Quem percorre hoje a Champs-Élysées, da esquina com a avenue Montaigne até alcançar o ápice no Arc de Triomphe, experimenta a sua versão mais opulenta, repleta de lojas conceito de grifes e marcas esportivas.
A julgar pelas vitrines, a sensação é que a francesa LVMH lidera a nova rodada de glamourização da avenida, com várias de suas marcas presentes e um hotel — o primeiro da empresa — prestes a ser inaugurado.
De fato, Bernard Arnault se tornou um dos principais investidores do pedaço nos últimos anos e pagou quase € 1 bilhão no edifício números 144-150 em 2023, mas nem o homem mais rico da França escapa de pagar aluguel a um proprietário estrangeiro por ali.
O terreno onde o empresário está construindo o seu hotel, nos números 103-111, é um dos vários imóveis na Champs-Élysées que pertencem a investidores cataris, neste caso ao fundo soberano do Catar.
Beneficiários de isenções fiscais na França devido a acordos bilaterais, famílias e fundos do país árabe são donos de mais de 20% “da fachada da avenida”, disse o Le Monde, ou 390 metros da sua extensão total de 1,3 quilômetro.
Analistas ouvidos pelo Metro Quadrado esperam que os preços continuem subindo à medida que o plano da prefeitura de Paris para ampliar o espaço pedonal e aumentar a arborização da Champs-Élysées avance nos próximos anos.
Assim, e com Arnault e diversas varejistas internacionais se engalfinhando por espaço, os aluguéis na via chegaram a € 17.000 por metro quadrado, e as lojas locais de menor expressão estão abandonando seus pontos para não mais voltar.
Nas perpendiculares George V e Montaigne, que delimitam o “Triângulo de Ouro” junto com a Champs-Élysées, o varejo de luxo também vai muito bem, obrigado, assim como em algumas das ruas principais do enclave, como a Marbeuf e a François 1er.
O cenário muda consideravelmente, no entanto, ao caminhar por ruas secundárias, onde há dezenas de lojas desocupadas. Muitas delas, de propriedade do empresário britânico Adrien Labi, mofam enquanto o seu dono responde na Justiça por fraude.
Nos imóveis locados, mais boutiques e restaurantes estrelados — nada que indique a presença de muitos moradores na região.
Não é só impressão: o ‘Triângulo’ possui hoje cerca de metade da população de há 50 anos, segundo a subprefeitura do 8º arrondissement, com apenas 2.000 pessoas registradas no cadastro eleitoral.
Quase 40% dos imóveis da região estão vagos ou são usados como segunda residência, disse o Le Monde, no índice mais alto de Paris.
Os novos donos, principalmente americanos, chineses e árabes, costumam passar apenas alguns dias por ano por ali, mas estão dispostos a pagar € 60.000 por metro quadrado pelo apartamento certo.
Imóveis com “serviços hoteleiros” incluídos, no estilo das branded residences, têm tido muita procura, mas são extremamente raros em uma região composta por prédios haussmannianos do século XIX.
Corretoras que atuam na região dizem que a demanda de estrangeiros por residências no ‘Triângulo’ deve continuar sustentada e que o varejo voltará a crescer nos próximos anos, mas adaptado às necessidades não básicas de quem passa por ali hoje em dia. Ou seja, mais marcas de luxo e nada de açougues, cabeleireiros ou supermercados.
Por ora, o setor de escritórios parece muito mais ativo, com dois retrofits em curso na rua Marbeuf e outro por começar na Champs-Élysées 29-33, onde ficava o cinema Gaumont Marignan.
O imóvel, recém-comprado pelas firmas estrangeiras de private equity Bain Capital e Revcap por € 400 milhões, terá 7.300 m² de escritórios e mais 4.800 m² de lojas.
“A região manterá sua vocação híbrida, mas com um padrão cada vez mais elevado,” disse uma consultora.







