O plano de R$ 1 bi de Porto Alegre para adensar a sua região industrial

Porto Alegre está avançando com o plano para adensar a sua antiga região industrial, chamada de Quarto Distrito.
A cidade anunciou que vai investir R$ 1 bilhão em infraestrutura urbana na área com o objetivo de atrair investimentos do mercado imobiliário, tanto para projetos residenciais quanto para escritórios.
Os recursos fazem parte de um montante de R$ 7 bi que a Prefeitura captou nos últimos anos com o Banco Mundial e o Fundo de Apoio à Infraestrutura para Recuperação e Adaptação a Eventos Climáticos Extremos (Firece), criado em 2024 pelo governo federal depois das enchentes no Rio Grande do Sul.
Assim como ocorreu em outras grandes cidades, a região industrial de Porto Alegre perdeu vigor ao longo das últimas décadas com a migração das fábricas para áreas mais afastadas, e passou a ter ares de lugar abandonado.
Mas como o Quarto Distrito tem uma localização privilegiada – está entre o Rio Guaíba, perto do porto, e o bairro Moinhos de Vento, um dos mais nobres da cidade – a gestão do prefeito Sebastião Melo (MDB) entende que há um potencial para uma revitalização similar ao que ocorreu em Barcelona, com o 22@, e em Miami, com o Design District.
Na avaliação da Prefeitura, o Quarto Distrito tem vocação para se consolidar como um bairro de uso misto.
Do lado comercial, abrigaria startups e negócios de economia criativa e seria também uma polo gastronômico e de bares. Já do lado residencial, receberia um público mais jovem com a oferta de apartamentos de tíquetes de médio padrão.
A estratégia se complementa ao que a Prefeitura está preparando para o seu novo Plano Diretor, que busca tornar Porto Alegre uma cidade com mais qualidade de vida para atrair talentos profissionais de outros lugares, aumentando a população da cidade, que tem caído nos últimos anos, e impulsionando a arrecadação do município.
Um dos símbolos desse esforço de resgate da cidade é o Cais Embarcadero, um complexo gastronômico inaugurado em 2021 em um trecho revitalizado do antigo Cais Mauá e que hoje sedia o South Summit, um dos maiores eventos de startups do País.
“Queremos tornar o Quarto Distrito mais atrativo do ponto de vista urbano, de caminhabilidade, e também do ponto de vista econômico, para recepcionar quem queira se instalar em Porto Alegre, consagrando o território como um ambiente de inovação,” Germano Bremm, o secretário de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade, disse ao Metro Quadrado.

“O Quarto Distrito está colado ao aeroporto, que é a entrada da cidade para o Brasil, e tem muita disponibilidade de terreno para investir, mas tem muitos desafios urbanos porque é uma área industrial que perdeu vocação para a indústria e foi ficando ociosa.”
Antes da pandemia, o Quarto Distrito já vinha recebendo alguns investimentos da iniciativa privada, mas de maneira pontual, como a instalação, no lugar de uma antiga fábrica, da sede do Instituto Caldeira – um hub de inovação apoiado por grandes empresas gaúchas e que tem servido como um berço de startups locais.
Mas o resgate da região foi interrompido pela crise da Covid-19 e depois pelas enchentes, que mudaram as prioridades do poder público e dos empresários.
Curiosamente, as enchentes acabaram servindo de argumento para a Prefeitura conseguir recursos com terceiros para investir na reconstrução da cidade, atraindo o capital do Banco Mundial e do Firece.
Além disso, na semana passada, a Prefeitura assinou um acordo de cooperação com o Instituto Caldeira para ajudar a impulsionar a área.
“Nós vamos delegar a eles algumas competências para ‘vender’ o Quarto Distrito para o mundo, fazendo o marketing do território e atraindo talentos, enquanto nós fazemos o papel do poder público de tocar as obras de melhorias urbanas,” disse o secretário.
Já com o dinheiro em mãos, a Prefeitura pretende criar corredores verdes, aumentando a arborização; criar conexões com bairros desenvolvidos, abrindo cruzamentos; tocar obras para melhorar a drenagem da cidade, uma prioridade que ganhou força após as enchentes; e criar um parque na área próxima ao porto.
Todas essas ações já estão previstas em uma lei aprovada em 2022, uma espécie de mini plano diretor para a região, mas que ainda não foram executadas porque a Prefeitura ainda não tinha os recursos.
Uma das principais medidas da lei foi aumentar o potencial construtivo de um trecho do Quarto Distrito que a Prefeitura estabeleceu como prioridade para desenvolver, o Distrito da Inovação, que soma 251 hectares. O índice máximo saltou de 3x para 7x.
A estimativa da Prefeitura é que o Quarto Distrito – hoje com cerca de 11 mil moradores – consiga atrair mais 40 mil pessoas.
Para isso, é preciso também que as incorporadoras acreditem que as melhorias de infraestrutura vão aumentar o potencial da região, e a ABF foi a primeira a fazer essa aposta.
A incorporadora fundada por Eduardo Laranja da Fonseca já lançou a primeira fase de um empreendimento chamado 4D Complex, um projeto residencial de lofts com VGV de R$ 150 milhões e 500 unidades, todas já vendidas.

Agora, a empresa está na fase de elaboração da fase d2 do projeto, que vai adicionar mais 1100 unidades, com VGV somado de R$ 350 milhões.
Eduardo se entusiasmou com o Quarto Distrito porque morou três anos em Barcelona e viu os efeitos positivos do resgate da região industrial da cidade catalã, e quis acelerar a revitalização da área industrial de Porto Alegre com o investimento em um boulevard.
“Nas grandes cidades, as regiões industriais em geral ficam próximas de centros históricos, e em Porto Alegre há ainda a proximidade com o Guaíba. Mas o Quarto Distrito se virou de costas para o rio, e agora temos a possibilidade de fazer essa reconexão com a água, que é algo que atrai as pessoas,” ele disse ao Metro Quadrado.
Com a revitalização da área, o empresário acredita que Porto Alegre pode atrair de volta as famílias de classe média que se mudaram para municípios da região metropolitana em busca de um lugar mais barato para morar, mas que ainda trabalham na capital.
“A área que vai do Quarto Distrito ao Centro e inclui o Moinhos de Vento representa cerca de 60% dos empregos formais de Porto Alegre. Se tu criar condições para que essas pessoas voltem, elas vão voltar, e poderão ir para o trabalho a pé,” ele disse.
Com o avanço do plano de recuperação do Quarto Distrito, a ABF pretende comprar mais terrenos para desenvolver novos projetos, e diz que, só nas áreas que têm mapeado, já calculou R$ 1 bi de VGV potencial.







