O plano do Rio para ressuscitar o bairro onde nasceu o samba

O plano do Rio para ressuscitar o bairro onde nasceu o samba
Thaís Soares |

Um dos pedaços históricos do Rio pode se tornar um novo polo de boom imobiliário da região central da cidade – tal como ocorreu com o Porto Maravilha.

A Prefeitura está preparando um projeto para recuperar o entorno da centenária Praça Onze, conhecida por ser o lugar onde o samba se consolidou e que foi destruída nos anos 1940 para abrir espaço para a construção da Av. Presidente Vargas, perdendo apelo como uma área para moradia.

O plano é resgatar uma ideia presente no projeto original de Oscar Niemeyer para o Sambódromo – a integração da Passarela do Samba com uma grande praça para uso urbano além do Carnaval.

A principal intervenção da nova empreitada – batizada de Praça Onze Maravilha – é a derrubada do Viaduto 31 de Março, que hoje funciona como uma barreira urbana ao longo da Marquês de Sapucaí. 

A retirada do elevado segue a mesma lógica adotada no Porto Maravilha com a derrubada da Perimetral. 

O objetivo é remodelar completamente o entorno do Sambódromo, com novos serviços, áreas verdes e equipamentos públicos — entre eles a Biblioteca dos Saberes, projetada pelo arquiteto Francis Kéré, que terá 40 mil m².

Nos últimos anos, aquele pedaço do Centro do Rio praticamente não recebeu novos lançamentos residenciais. 

Bairros ao redor, como Santa Teresa e Estácio, não registraram novas unidades desde 2021, segundo dados do Secovi Rio.  Já a Lapa teve apenas um projeto lançado em 2025, depois de uma seca de cinco anos.

Mesmo no recorte do Centro próximo ao Sambódromo, o volume de novos empreendimentos permaneceu baixo. 

Embora seja um território central, com infraestrutura de transporte consolidada e proximidade com polos de emprego, o entorno imediato do Sambódromo possui baixa presença de moradores.

Essa combinação sempre dificultou a formação de um bairro com uso cotidiano, levando a área a funcionar por longos períodos mais como espaço de passagem do que como lugar de permanência.

O projeto da Prefeitura abrange uma área de cerca de 2,5 milhões de metros quadrados, e tem investimento estimado de R$ 1,75 bilhão. O financiamento será integralmente privado, entre concessões, parcerias público-privadas e instrumentos urbanísticos.

A proposta também inclui o envio à Câmara Municipal de um projeto de lei para a criação da Área de Especial Interesse Urbanístico (AEIU) Praça Onze Maravilha, abrangendo os bairros do Catumbi, Estácio, Cidade Nova e Praça Onze. 

O plano prevê a possibilidade do lançamento de 37,5 mil unidades residenciais ao longo de 25 anos, com potencial para atrair mais de 100 mil moradores.

“O Porto Maravilha revitalizou a face voltada para a Baía. Agora, é a vez da face interna do Centro, do outro lado da Presidente Vargas,” disse Thiago Soares, sócio da The INC. 

Inaugurada em 1903, durante as reformas urbanas do prefeito Pereira Passos, a Praça Onze de Junho (como era chamada) foi batizada em homenagem à Batalha do Riachuelo, que aconteceu em 11 de junho de 1865, durante a Guerra do Paraguai.

Ao longo das primeiras décadas do século XX, a Praça Onze se consolidou como um dos principais espaços de convivência popular do Rio, especialmente ligado à população negra e às manifestações culturais que ajudaram a formar o samba carioca, em um entorno marcado por cortiços e moradia popular.

Com a abertura da Avenida Presidente Vargas, em 1944, a praça original foi eliminada do traçado urbano, transformando a região numa passagem de carros. 

O Viaduto 31 de Março, inaugurado em 1979, dificultou ainda mais a conexão entre quarteirões, afastando usos residenciais e comércio de bairro.

Já o Sambódromo foi entregue para o Carnaval de 1984, durante o governo de Leonel Brizola. A construção trouxe notoriedade novamente para a região, mas ainda sem espaços caminháveis ao redor. 

Foi essa sequência de intervenções que deixou a região fora do radar do mercado – mas agora tudo pode mudar. 

“O fenômeno que está acontecendo hoje no Porto Maravilha vai se espraiando para outras novas pequenas centralidades ali na região. E a Praça Onze vai ser uma delas,” disse Paulo Takito, sócio-diretor da Urban Systems, consultoria de desenvolvimento urbano que fez o masterplan do Centro com o BNDES.

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