A construção civil está cansada de perder jovens profissionais para aplicativos como o iFood e a Uber.
Para tentar reverter o quadro, o Sinduscon de São Paulo lançou uma estratégia que inclui um plano de carreira, com promoções e salários detalhados, e está propondo até o fim de termos como pedreiro e servente, para tornar o trabalho mais atraente.
Em setembro, a entidade iniciou um projeto com o Senai para ordenar a divisão de cargos nos canteiros, hoje com nomenclaturas e salários variados.
A ideia é acelerar e ordenar as promoções, que deixarão de depender mais do tempo de casa e da simpatia dos chefes, para se basearem nos conhecimentos adquiridos. Para passar de um degrau a outro, os profissionais terão de fazer cursos e provas padronizadas.
As aulas serão oferecidas pelo Senai, em parceria com as construtoras, para que os trabalhadores possam estudar após o expediente, por exemplo.
O experimento está sendo feito em dez empresas de São Paulo desde o mês passado e prevê sete etapas na carreira. Agora, o jovem entra como auxiliar de produção (e não mais como servente de pedreiro), com salário médio mensal de R$ 2.400.
Depois, ele pode avançar para oficial de produção 1 (não mais o meio oficial de pedreiro), depois será promovido a oficial 2 (o atual pedreiro) e, quando se tornar chefe, a encarregado de produção. No topo, estão as posições de mestre de obras júnior, pleno e sênior.
"Estamos tentando dignificar as funções. Servente é alguém que serve. Agora, vai ser auxiliar de produção,” Eduardo Zaydan, o presidente executivo do Sinduscon, disse ao Metro Quadrado.
Ao chegar a mestre de obras, o profissional pode ganhar até R$ 25 mil mensais, após cerca de uma década de trabalho.
“É um patamar que ele não vai alcançar sendo motorista de aplicativo ou entregador, porque ele vai ter de trocar de veículo ao longo do tempo e é pouco provável que vire diretor da Uber,” Renato Genioli Jr, o vice-presidente financeiro do Sinduscon, disse ao Metro Quadrado.
O novo plano de carreira também é direcionado aos profissionais que já atuam no setor. Segundo os dados do Caged de agosto, a construção emprega 3,15 milhões de pessoas no País, sendo 832 mil no estado de São Paulo.
O número inclui trabalhadores de várias funções, como eletricistas, pintores e profissionais de demolição, e de diversos segmentos, como obras de edifícios, rodovias e redes de água e esgoto.
Neste ano, foram criados 200 mil novos postos de trabalho no setor no País. Só em agosto, foram abertas 20,8 mil vagas.
As construtoras também querem enfatizar que o trabalho nas obras está ficando mais leve, com o maior uso de partes pré-moldadas.
“Com a industrialização, os trabalhos não são tão pesados como antigamente, quando tudo era feito na força bruta,” diz Genioli.
O Sinduscon está fazendo roadshows pelas cidades paulistas para divulgar a proposta e atrair mais empresas interessadas em aderir ao modelo.
A expectativa é que, no futuro, possa haver uma padronização nacional, o que facilitaria a circulação de trabalhadores entre os estados, sem comprometer seu avanço na carreira.
“A gente fala muito aqui que filho de pedreiro não quer ser pedreiro. Com essa trilha, a gente acredita que isso vá mudar,” afirma Genioli.




