Com a reforma tributária, será mais vantajoso comprar partes do prédio prontas da indústria, em vez de produzir tudo no canteiro – e o mercado começa a se preparar para a mudança, que demanda muitas adaptações.
O ganho virá dos créditos tributários gerados pelos fornecedores, usados para compensar parte dos impostos pagos pela construtora, o que reduz o custo de comprar uma solução pronta.
Embora a reforma ainda esteja em fase de transição, algumas empresas, como o Grupo Lucio, passaram a pedir aos fornecedores que informem, além do preço, o quanto cada aquisição poderá gerar em créditos.
A construtora quer acostumar a cadeia ao novo modelo e pretende incorporar essa informação aos orçamentos dos empreendimentos.
A expectativa de Roberto Clara, diretor de Engenharia do Grupo Lúcio, é que a nova lógica simplifique a compra de sistemas pré-fabricados.
“A reforma vai impulsionar a industrialização,” ele disse durante um seminário da AsBEA-SP – a Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura de São Paulo.
Hoje, em algumas operações, a própria construtora compra o aço usado nas peças pré-fabricadas e o envia ao fabricante, que faz o beneficiamento antes de entregar o produto na obra.
“Isso é loucura, não é engenharia,” disse Roberto.
Por outro lado, a reforma não elimina diversos outros entraves à industrialização.
A oferta de fornecedores e equipamentos é limitada em algumas regiões, enquanto a adoção desses sistemas exige mais planejamento e profissionais preparados, segundo Carlos Borges, vice-presidente de Tecnologia e Sustentabilidade do Secovi-SP.
Essa preparação precisa começar bem antes do canteiro e, dependendo do sistema escolhido, pode anteceder até a compra do terreno – uma dificuldade para a maior parte das construtoras brasileiras, que são pequenas e familiares.
“Entre as construtoras, 98% têm menos de 20 funcionários e pouco acesso a crédito. É difícil para um empresário muito pequeno ter condições, motivação e a capacidade de industrializar,” disse Borges.
Maurício Limbian, vice-presidente do Sinduscon-SP, vê outra barreira dentro dos escritórios de arquitetura e engenharia, onde ainda se projeta sem conhecer a fundo como os sistemas serão fabricados, transportados e montados.
Para ele, essa distância entre quem desenha e quem constrói acaba empurrando para o canteiro decisões que deveriam ter sido resolvidas antes.
“Se você quiser industrializar e não souber o processo, vai ter uma Ferrari andando numa rua esburacada, e eu vou ter um Fusquinha e vou chegar primeiro que você,” disse Limbian.
Ao mesmo tempo, ele considera que o arquiteto foi dividindo a mesa com profissionais responsáveis por estrutura, instalações, fachada e outros pedaços do edifício e acabou perdendo parte do papel de juntar essas decisões em um único projeto.
Na construção industrializada, essa coordenação fica ainda mais importante porque cada sistema pode funcionar bem sozinho e dar problema ao se encaixar com os demais.
“Nasce uma oportunidade maravilhosa, inclusive para arquitetos autorais, de desenvolver um setor de projetos industrializáveis,” ele disse.




