O prefeito que está fazendo San Francisco voltar a ser cool

San Francisco está experimentando uma espécie de renascimento desde que passou a ser governada pelo prefeito Daniel Lurie.
Com uma política que busca facilitar a atração de investimentos privados, o Democrata está tentando reacender a vocação da cidade como um destino de startups e deixar no passado o rótulo que ganhou como um lugar de usuários de drogas e pessoas em situação de rua.
O trabalho ainda está no começo – Lurie tem apenas um ano de mandato – mas já é possível notar a melhora de alguns indicadores do setor imobiliário, com o reaquecimento das locações corporativas.
E já há até uma conquista simbólica: a cidade voltará a receber neste domingo o Super Bowl, a final do campeonato de futebol americano e principal evento esportivo dos Estados Unidos, que deve ter um impacto econômico local de US$ 440 milhões.
Boa parte desse renascimento se deve ao networking do prefeito.

Herdeiro de parte da fortuna da marca de roupa Levi’s e fundador do Tipping Point Community, uma organização sem fins lucrativos de combate à pobreza em San Francisco, Lurie aproveitou seu trânsito com bilionários e CEOs para atrair investimentos para a cidade.
Em poucos meses, empresas como JPMorgan Chase, Blackstone e Anthropic anunciaram novos negócios imobiliários. Além disso, dois arranha-céus foram vendidos em junho por US$ 177 milhões, na maior transação imobiliária comercial de San Francisco em três anos.
A atividade de locação de escritórios atingiu o maior patamar em uma década durante o primeiro trimestre do ano anterior, de acordo com a corretora Savills, impulsionada em boa parte por empresas de AI.
San Francisco está com alta demanda para prédios comerciais de alto padrão, o que pode impulsionar a construção de novas torres.
A taxa de vacância em lajes comerciais caiu de 34% em 2024 para 33% no ano passado, e o nível já está em 9,1% em prédios Tier 1, os mais luxuosos da cidade, segundo dados da Cushman & Wakefield.
A retomada do mercado imobiliário também ajudou em indicadores de qualidade de vida. Em 2025, a cidade registrou o nível mais baixo de crimes em décadas, enquanto os acampamentos de sem-teto caíram.
No mercado de habitação, o preço médio de um imóvel na cidade subiu 51% em maio de 2025 na comparação com valores praticados um ano antes, segundo dados do site especializado em mercado imobiliário Realtor.com.
No campo dos pequenos negócios, Lurie atuou para acabar com empecilhos como uma taxa de US$ 2,5 mil para obter permissão para colocar mesas e cadeiras na calçada, ou o pagamento de uma licença para pintar o nome de seu negócio na fachada ou fazer outras melhorias, como instalar uma nova porta.
O prefeito também acabou com a necessidade de inspeção municipal para um estabelecimento estender seu horário de funcionamento e flexibilizou a lei que definia quais estabelecimentos poderiam ficar no térreo de torres de uso misto.
“San Francisco está aberta para negócios, e estaremos lá em cada etapa do caminho para dar vida às suas ideias em nossa grande cidade,” o prefeito disse em julho de 2025.
A velocidade com a qual ele conseguiu mudar o rumo da cidade surpreendeu até mesmo veteranos da administração pública local.
Ed Harrington, que entre 1991 e 2008 foi membro do Conselho (o equivalente à Câmara dos Vereadores), avalia que o prefeito está indo bem ao buscar o diálogo para avançar com suas medidas em vez de tentar aprová-la goela abaixo.
O lado conciliador já havia se revelado na campanha, quando ele recebeu doações tanto de democratas quanto de republicanos.
Um dos maiores doadores de sua campanha foi a organização conservadora San Francisco Briones Society.
Um dos co-fundadores do grupo, Jay Donde, justificou o apoio ao dizer que “a única vantagem que Daniel tem sobre todos os outros candidatos é que ele pode dizer que não estava no cargo e não participou da política que nos levou à bagunça atual em que a cidade se encontra.”
A postura pró-negócios de Lurie, no entanto, criou algumas resistências dentro do próprio Partido Democrata. Connie Chan, uma integrante do Conselho, criticou a proximidade do prefeito com bilionários e defende uma proposta, apoiada por sindicatos, que impõe impostos maiores para executivos com altos salários – algo que Lurie já sinalizou não apoiar.
O prefeito rebate dizendo que San Francisco virou as costas para quem transformou a Bay Area na região mais inovadora do planeta, e por isso tem trabalhado para trazer os empreendedores de volta.
“A cultura de startups tem muito a ver com onde está o dinheiro. É em San Francisco que está o financiamento de capital de risco, o financiamento de private equity, é aqui que essas empresas têm sua sede,” disse Robert Sammons, o diretor sênior de pesquisa da Cushman & Wakefield.
Dada a natureza mais ágil das startups, os imóveis mais procurados no momento em San Francisco são os plug and play: locais prontos para receber uma equipe de trabalho desde o primeiro dia de aluguel, que já contam com luz, internet e mobiliário.







