Os não arquitetos que criaram uma nova bienal de arquitetura

Há dez anos, dois empreendedores capixabas criavam uma plataforma que conecta arquitetos ao mercado imobiliário. Agora, eles estão usando a mesma tecnologia para construir a segunda bienal de arquitetura do País.
Raphael Tristão e Anna Rafaela Torino – os fundadores da Archa – estão nos preparativos finais para a estreia da Bienal de Arquitetura Brasileira (BAB), que vai acontecer entre 25 de março e 30 de abril, no Parque Ibirapuera, ocupando 20 mil metros quadrados entre o Pavilhão das Culturas Brasileiras e uma área externa anexa.
A expectativa é de 160 mil visitantes pagantes ao longo do período expositivo, além de mais de 1 milhão de pessoas circulando pela área aberta do parque.
São Paulo já possui sua própria Bienal, realizada tradicionalmente pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), mas o evento segue uma lógica mais teórica e expositiva para os próprios arquitetos.
“A nossa visão é de uma experiência muito mais de ‘edutenimento’, uma mistura de educação com entretenimento, um trabalho feito de maneira sensorial para que o grande público possa viver os espaços,” Raphael disse ao Metro Quadrado.

Raphael é formado em engenharia ambiental, mas tem contato com a arquitetura desde a infância, quando via sua mãe comandar a franquia em Vitória da CasaCor.
“Eu cresci convivendo com esse mundo, com uma visão privilegiada de poder ver todos os agentes do mercado. Isso sempre ficou muito na minha cabeça,” ele disse.
A arquitetura voltou a ganhar espaço na sua vida quando ele vendeu sua participação numa startup investida da Telefônica, em 2011, e em seguida foi convidado para dar uma consultoria de negócios para a CasaCor do Espírito Santo.
A experiência o mostrou como o mercado da arquitetura era dependente de relacionamento, deixando as melhores oportunidades para os grandes escritórios.
Foi assim que, em 2016, ele convidou Anna Rafaela, sua amiga de infância e advogada de formação, para criar a Archa, uma plataforma que promove concursos de arquitetura para projetos imobiliários.

Hoje, a startup tem 123 mil arquitetos cadastrados, mais de 2 mil projetos criados e cerca de R$ 2,5 bilhões em produtos feitos por meio da plataforma – com clientes como Google e a Warner Brothers.
“Eu brinco que talvez a empresa só existe porque não não somos arquitetos. Conseguimos olhar com uma visão um pouco mais fria e abrangente para o mercado, porque normalmente há um vínculo mais emocional, da paixão pelo artístico,” disse Raphael.
Em meados de 2024, quando a Archa se aproximava do seu aniversário de 10 anos, os sócios começaram a se perguntar qual seria o próximo desafio da startup.
Raphael chegava de visita da Bienal de Arquitetura de Veneza, onde percebeu que queria fazer algo parecido para o mercado brasileiro.
Os sócios pensaram numa lógica de um pavilhão para cada estado do Brasil. Com a tecnologia da Archa, criaram um concurso para o masterplan do evento – vencido pelo arquiteto Leonardo Zanatta, que projetou um conceito que divide os estados entre biomas.
As propostas foram avaliadas por uma comissão que incluiu arquitetos de grandes escritórios, revistas do setor, representantes de órgãos de proteção ao patrimônio como o Iphan, e o poder público, com o presidente da SPUrbanismo, Pedro Fernandes.
Para os pavilhões estaduais, os arquitetos foram desafiados a projetar uma casa de 100 metros quadrados de acordo com o que pensam representar seu estado.
Mais de 1,3 mil arquitetos se inscreveram, e nessa fase ocorreu uma votação entre os arquitetos de cada estado.
“Com o mesmo espaço e o mesmo desafio, um escritório de arquitetura faz algo completamente diferente do outro, até mesmo em relação a materiais,” disse Anna Rafaela.
Os sócios também aproveitaram sua proximidade com as marcas para atrair patrocinadores como a Electrolux, Suvinil, TCL e o Metrô de São Paulo.
“Se olhar a nossa história, tudo que fizemos está se materializando na Bienal de alguma forma, desde revelar novos talentos a concorrências de arquitetura,” disse Anna Rafaela.







