Em seu auge, o centro paulistano abrigava uma série de cinemas gigantescos em suas calçadas, com centenas de poltronas e arquitetura cuidadosa. Quase todos fecharam as portas, mas alguns seguiram adormecidos por décadas. Agora, parte deles está voltando à vida, em nova roupagem.
Em 2026, vários projetos de recuperação de cinemas de rua foram anunciados, como parte de iniciativas que buscam criar espaços culturais e de interação em torno dos filmes, além de recuperar prédios históricos.
No mais recente avanço desse movimento, três cinemas apareceram entre as 24 propostas que avançaram em um edital da Prefeitura de São Paulo para receber recursos públicos destinados a retrofits.
Os cinemas Dom José e Ipiranga, além do Cine Copan, já em obras, foram aprovados na primeira etapa do 4º Chamamento de Subvenção Econômica.
Ainda haverá mais duas etapas de avaliação até a liberação da verba a ser usada para custear os retrofits, que soma R$ 200 milhões a serem divididos entre os projetos.
“São imóveis que podem voltar a cumprir um papel importante na dinâmica da região, aproveitando uma infraestrutura urbana já consolidada,” disse a secretária municipal de Urbanismo e Licenciamento, Elisabete França.
O Dom José, por exemplo, foi inaugurado como Cine Jussara, na rua Dom José de Barros, em 1951, perto do Largo do Paissandú.
O prédio é assinado pelos arquitetos Alfredo Mathias e Giancarlo Palanti. Mathias desenhou a Galeria do Rock e o Palácio Anchieta, enquanto Palanti atuou nos projetos do Cine Belas Artes e do Teatro Cultura Artística.
O Jussara tinha a proposta inicial de destacar filmes franceses. Em 1967, passou a se chamar Cine Bruni e, nove anos depois, virou Cine Dom José. Nas últimas décadas, exibe filmes pornôs.
O proponente do projeto de recuperação do Dom José é o Grupo Tokyo, que pede R$ 4,2 milhões de subvenção.
Os outros dois cinemas, Ipiranga e Copan, tiveram projetos propostos pela Viva do Brasil, com pedidos de R$ 4,3 milhões e R$ 3,6 milhões, respectivamente.
Perto da esquina com a Avenida São João, o Cine Ipiranga é de 1943 e integra o prédio do hotel Excelsior, projetado por Rino Levi. Foi inaugurado com 1.936 assentos, incluindo balcões de "primeira classe", com ingressos mais caros.
O cinema foi reformado em 1976, quando passou a ter duas salas, e encerrou as atividades em 2005. Em 2010, foi tombado pelo Condephaat, mas segue sem uso.
Já o Cine Copan, que recebeu patrocínio do Nubank, está em processo de reforma, com abertura prevista para 2027.
O espaço, fechado há 40 anos, tem capacidade para 440 pessoas e, além de filmes, receberá shows, peças de teatro e exposições no hall de entrada. O custo total estimado para a reforma é de R$ 68 milhões, captados de fontes diversas.
Além destes três cinemas, há outros projetos de salas de rua que avançam em São Paulo.
No começo de outubro, o Grupo Tokyo anunciou a reforma do Cine Rosário, no edifício Martinelli. A sala, de 1929, fechada há 70 anos, fica no térreo do prédio, com acesso pela Avenida São João.
A reabertura está prevista para 2028, após uma reforma que deverá custar cerca de R$ 25 milhões. O espaço tinha originalmente mais de mil lugares, mas terá uma capacidade menor agora, para atender às regras de acessibilidade.
“Temos uma das maiores comunidades de cinéfilos do mundo, mas ainda são poucos os lugares para ela se encontrar,” disse Fábio Floriano, CEO e sócio-fundador do Grupo Tokyo.
“O Rosário nasce para ser esse ponto de encontro, com boa programação, atividades e a experiência de ver um filme em película, numa sala com história,” afirma.
Um novo cinema de rua que já pode ser visitado é o Cine Tutu, aberto no começo de outubro na Vila Madalena, com poltronas com tecidos floridos, cortinas de veludo verde e uma unidade do café e bar Barouche, em um projeto de Isay Weinfeld.
O espaço foi criado por Paulo Velasco, dono também do Cinesala, em parceria com Alfredo Setúbal, sócio da editora Todavia, Marcos Nisti, sócio da Maria Farinha Filmes, e Mariana Lucas, professora de Cinema da Faap.
Apesar de não estar em um prédio histórico, o Tutu também traz a proposta de ser um espaço para sentar e conversar. Na entrada, há uma unidade do bar e café Barouche e uma arquibancada com almofadas. O local já integra o circuito da Mostra de Cinema de São Paulo deste ano.
A imagem do topo mostra a fachada do Cine Ipiranga e é uma adaptação de uma foto publicada na revista Acrópole.




