No Copan, o que era igreja vai voltar a ser cinema

Os cinemas de rua pareciam fadados a virar igrejas evangélicas, mas os cinéfilos finalmente conseguiram marcar um gol de honra na disputa por espaço com os fiéis pentecostais.
No Copan, o icônico prédio do Centro de São Paulo, uma parte do térreo originalmente projetada por Oscar Niemeyer para ser um cinema – mas que depois se tornou uma das unidades da igreja Renascer em Cristo – vai voltar a exibir filmes.
O Nubank comprou o espaço e vai reformá-lo para inaugurar um novo cinema em 2027, o Nu Cine Copan, com uma sala de 440 assentos.
Na primeira inauguração, em 1970, o cinema tinha quase 1200 lugares, com poltronas vermelhas de veludo, e exibiu um dos filmes do 007, “A serviço da sua majestade.”
O espaço foi fechado em 1986, no mesmo ano em que Estevam e Sônia Hernandes, um casal de pastores, fundou em São Paulo a Renascer em Cristo – hoje uma das igrejas mais engajadas politicamente e responsável pelas marchas para Jesus, que reúnem dezenas de milhares de fiéis em várias capitais.
A denominação comprou o cinema do Copan nos anos 1990, num momento em que as igrejas pentecostais estavam vivendo um novo boom no Brasil, e os pastores buscavam espaços maiores para dar conta do aumento do número de fiéis, impulsionado pelas transmissões de cultos no rádio e na TV.
Ao mesmo tempo, o centro de São Paulo vivia uma onda de cinemas de rua sendo fechados, sem conseguir bater de frente com os shoppings que cresciam nas grandes capitais exibindo blockbusters.
No espaço do Copan, a Renascer em Cristo só ficou até 2008, depois de o lugar ser interditado pela Prefeitura, que apontou irregularidades administrativas e em uma reforma. A igreja também ficou anos sem pagar as taxas do condomínio.
Também em 2008, a Fundação Renascer – a então dona do imóvel – foi liquidada, e seus bens foram bloqueados pela Justiça.
Em julho do ano passado, o então síndico do Copan, Affonso Celso Prazeres de Oliveira, que morreu em dezembro, disse que partes do antigo cinema foram descaracterizadas, como o piso original e a área das poltronas.
A aquisição do lugar pelo Nubank remonta a uma tradição do setor financeiro de investir em equipamentos culturais, muitas vezes incentivadas por benefícios fiscais.
Nos últimos anos, porém, algumas instituições financeiras deixaram de investir em cinemas de rua, como o Itaú, a Caixa e agora a Reag, que tirou sua marca do Cine Belas Artes depois de virar alvo da Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal.
A reforma do novo cinema do Copan vai começar em junho e a ideia é recuperar o projeto de Niemeyer, trazendo de volta o foyer, uma espécie de salão principal que seria construído para impedir que a entrada fosse feita pelo térreo. Hoje, o que seria o foyer faz parte de uma galeria de arte.
A ideia do projeto original era que o cinema fosse um espaço de circulação no Copan, ao permitir essa ligação entre o foyer e o térreo.
O Nubank também pretende recuperar o mesmo design da fachada do Cine Copan, com as letras em itálico e caixa alta.
Antes do início da reforma, entre fevereiro e maio, o espaço será improvisado como uma sala de teatro, e vai exibir “Hamlet”, o clássico de Shakespeare.
A volta do cinema do Copan se soma a outros movimentos de revalorização do edifício, que tem atraído gente com vontade de morar em um lugar cool, e também voltou a atrair empresas para os seus andares corporativos, como o escritório do Enjoei.
Recentemente, a gestora Ilion Partners comprou um outro andar corporativo inteiro do prédio para reformá-lo, e agora busca revendê-lo a interessados em surfar a recuperação do Centro, que em breve voltará a ter a sede do governo estadual.
Além disso, no ano passado, o Copan entrou na lista de edifícios que vão receber um subsídio da Prefeitura para passar por um retrofit, no valor de R$ 13 milhões, montante que será usado para revitalizar áreas comuns e fachadas.







