‘São Paulo nas Alturas’ questiona a arquitetura da metrópole

Um pequeno milagre aconteceu na paisagem de São Paulo durante a década de 1950. Graças a um raro alinhamento entre arquitetos antenados com a modernidade, incorporadores ousados e novas instituições de crédito imobiliário, o mercado imobiliário viveu um momento de dinamismo e criatividade.
Não por acaso, marcos do modernismo paulistano como o Copan, o Conjunto Nacional e a Galeria do Rock surgiram nos anos 1950 e início dos 1960 (embora a construção do primeiro tenha se arrastado até 1974).
Lançado em 2017, São Paulo nas Alturas, de Raul Juste Lores, traçou a história desse ainda pouco conhecido período dourado da arquitetura brasileira. Essencial para compreender o que deu certo e o que dá errado nas políticas urbanas de São Paulo – e, por extensão, de outras cidades brasileiras –, o livro ganhou uma reedição atualizada no fim de 2024. (Compre aqui.)
No esforço de contar a história de uma era de inventividade arquitetônica, Raul faz o serviço completo: explica as circunstâncias sociais, econômicas e culturais que possibilitaram a inovação, traça o perfil de seus protagonistas, descreve os edifícios mais notáveis do período (com amparo de fotos em preto e branco e de um belo caderno de imagens em cor) e, por fim, disseca as razões pelas quais a renovação esgotou-se, abrindo o campo para a mediocridade dos prédios padronizados que se erguem hoje.
Naturalmente, os personagens principais do livro são arquitetos. O mais celebrado brasileiro do ofício está lá: o carioca Oscar Niemeyer foi muito ativo em São Paulo nos anos 1950, projetando uma galeria comercial e vários prédios, com destaque para o Copan.
O livro narra a ascensão e o breve reinado de um tipo que, segundo Raul, vem sendo ignorado nas faculdades de arquitetura: o arquiteto-empreendedor.
Incentivados por um mercado aquecido pela demanda da classe média e pela baixa oferta de domicílios para aluguel (consequência da restritiva Lei do Inquilinato então em vigor), os profissionais da mesa de desenho arriscaram-se montando suas próprias incorporadoras.
O mais peculiar desses desbravadores foi João Artacho Jurado. Sem qualquer diploma – foi tirado da escola aos dez anos porque seu pai, um anarquista espanhol, não admitia que o filho cantasse o Hino Nacional – esse legítimo self-made man tornou-se um arquiteto autodidata e construtor prolífico.
Seus edifícios residenciais na região de Higienópolis conjugavam colunas sinuosas, curvas à moda de Niemeyer e cores exuberantes (Artacho adorava pastilhas azuis e cor de rosa). Seu estilo, que Raul define como “modernismo kitsch”, foi desdenhado pelos modernistas ortodoxos mas fez sucesso entre os compradores. Artacho atendia ao consumidor de renda média, oferecendo apartamentos com metragens de 80 a 230 metros quadrados em um mesmo prédio.
No time dos arquitetos-empreendedores, havia muitos imigrantes europeus, como Maria Bardelli e Ermanno Siffredi, o casal italiano que, entre outros prédios notáveis, construiu a popular Galeria do Rock (originalmente batizada de Grandes Galerias), ainda hoje um ponto comercial vibrante.
Raul considera “quase ofensivo” dizer que essa obra é uma antecessora dos shoppings, esses “caixotões cegos” que isolam o consumidor da área externa. Ligando duas ruas do centro paulistano, a Galeria do Rock é “despudoradamente devassável.”
O diálogo dos prédios com a rua foi um traço comum dos criadores que desfilam pelas páginas de São Paulo nas Alturas. O térreo democrático do Copan, no Centro, ainda hoje abriga um fervilhante conjunto de lojas e restaurantes. A cinco minutos a pé dali, o jardim interno da Galeria Metrópole, projeto de Salvador Candia e Gian Carlo Gasperini, comunica-se democraticamente com as vias ao seu redor. Na Paulista, o Conjunto Nacional, de David Libeskind, mantém a continuidade visual entre a calçada e sua área comercial, ambas com piso de pedra portuguesa.
A explosão criativa acabou suprimida por um mal econômico que o país demoraria a superar: a inflação.
Quando a construção de Brasília instaurou uma demanda voraz por material, os sistemas de financiamento que aqueceram o mercado paulistano não resistiram à alta de preços. Financiadoras e construtoras quebraram, e a conexão criativa entre arquitetos e empresariado nunca mais seria reatada.
Nos capítulos finais do livro, o autor critica a mediocridade reinante na construção civil em São Paulo e analisa os desequilíbrios dessa cidade em que apenas um quarto da população vive na Zona Oeste e no Centro Expandido – a área que concentra 70% dos empregos.
Não se imagine, porém, que esse contraste entre o presente pobre e o momento áureo de meados do século XX venha carregado de nostalgia.
Raul não se contenta em olhar para o retrovisor. Seu livro apresenta um momento fulgurante do passado como inspiração para o futuro das metrópoles brasileiras.
São Paulo nas Alturas é a crônica não da cidade que se perdeu, mas da que ainda pode ser criada.