Vai construir em NYC e incomodar a vizinhança? Better call Shapiro

Vai construir em NYC e incomodar a vizinhança? Better call Shapiro
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NOVA YORK – John Shapiro é uma espécie de bombeiro para projetos urbanos que demandam negociações com comunidades impactadas.

Na hora em que as conversas travam e ninguém quer ceder, ele é chamado para achar um caminho.

“Todas as negociações anteriores precisam falhar para que meu método funcione,” o urbanista disse ao Metro Quadrado

Além de professor do Pratt Institute, ele é um veterano de trabalhos de planejamento urbano com atuação em cidades como Washington, Stamford (CT), Albany, Newark, Bridgeport e Philadelphia.

John Shapiro

Mas foi em Nova York onde ele realizou alguns de seus principais projetos: Brooklyn Navy Yard, Cooper Square, Essex Crossing e East Midtown, esta última ainda em andamento.

Os projetos revitalizaram suas regiões sem expulsar as populações locais e trazendo novos empreendimentos e atrativos para a área – frutos de uma mediação que não busca agradar totalmente a todos.

“Eu me encontro com cada uma das partes interessadas nos primeiros três meses e pergunto quais são os seus termos inegociáveis, as únicas ou no máximo duas coisas que você não abre mão? É a partir daí que negociamos,” ele diz.

A ideia é estabelecer uma relação de confiança com os grupos com interesses contrários. Busca nunca dizer “não” às demandas e entender a origem delas para oferecer um contraponto – sempre feito por um especialista que ele leva para blindar sua posição de mediador. 

“Cerca de 90% das vezes esse método faz com que as pessoas revelem seus verdadeiros interesses ao defender algum aspecto do projeto,” disse Shapiro. 

Com os inegociáveis definidos, as partes começam a discutir as questões por categorias, tornando a conversa mais fácil e mais técnica.

Na relação com os agentes públicos, o urbanista exige que eles abram mão de sua autoridade para que a confiança criada com a comunidade dure até o final do projeto. Segundo ele, é preciso que o Estado seja o “primeiro entre os iguais”.

“Por que grupos contrários concordariam com algo se eles sabem que no final a prefeitura vai mudar tudo ou assumir o lado de alguém?,” disse Shapiro.

O método foi desenvolvido durante as discussões para a construção do Brooklyn Navy Yard, mas um dos trabalhos mais desafiadores se deu em Essex Crossing, um projeto de revitalização ao redor do histórico Essex Market, no sul de Manhattan.

Nesse caso, o urbanista disse que a técnica funcionou “50%” e que a administração municipal insistia em querer dar a palavra final.

Lá, a comunidade local – formada por imigrantes chineses e porto-riquenhos – advogou pela construção de moradias acessíveis, mas encontrou a resistência de um parlamentar que vetava iniciativas de moradia popular por ter um eleitorado conservador.

A influência dele atrasou as obras, que só avançaram depois que o vice-prefeito de Nova York convenceu o então prefeito Michael Bloomberg de que o projeto era importante demais para ser engavetado.

O político contrário nunca chegou a se manifestar publicamente, num sinal de que o custo de dizer não era maior que o custo de dizer sim. “Ele apostou que o projeto iria falhar,” disse Shapiro.

O projeto final – firmado em 2014 – estabeleceu que 50% das novas habitações fossem acessíveis para a classe média, além da renovação do antigo mercado e a criação de praças e áreas comuns.

Hoje a região tem uma mistura de prédios comerciais e residenciais e está movimentada durante todos os momentos do dia, com quase todas suas fachadas ativas ocupadas.

A reforma no Essex Market também aumentou o tráfego de pessoas pela região ao transformar um entreposto comercial de varejo em um ponto turístico com uma série de opções para comer no local.

É comum ver passar pelos corredores turistas em fila indiana com fones sobre a cabeça, dividindo espaço com trabalhadores apressados carregando caixas e senhoras com seus carrinhos de feira – uma mistura para dar orgulho a planejadores urbanos.

“Eu sou um community planner, acredito no poder da comunidade,” ele disse. “Mesmo que eu não ache que a comunidade esteja correta, eu vou avançar com suas ideias.”

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