Chuva, desapropriação, incêndio: o inferno astral da Prologis

Chuva, desapropriação, incêndio: o inferno astral da Prologis
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A Prologis está vivendo um inferno astral no Brasil.

Depois de prejuízos milionários causados pelas chuvas em Cotia e de um processo de desapropriação de terreno que azedou um projeto bilionário no Grande ABC, agora a gigante americana vê um de seus empreendimentos derreter em chamas.

Na noite do domingo de Carnaval, um incêndio de grandes proporções atingiu um complexo logístico da Prologis em Arujá, no interior de São Paulo – e o episódio pode ser o início de mais uma novela para a empresa.

A companhia ainda lida com os problemas de Cotia, onde um novo projeto segue com as obras embargadas pela Justiça após as chuvas levarem lama para a casa de uma vizinha, e no Grande ABC, onde tenta reverter uma desapropriação feita para o Metrô, e assim poder construir um condomínio logístico.

Agora, deve enfrentar um novo imbróglio com as discussões sobre as causas do incêndio, envolvendo as seguradoras da proprietária e da inquilina, a Suzano.

O Prologis Dutra SP é um condomínio logístico Triple-A que fica no quilômetro 203 da Rodovia Presidente Dutra. O ativo possui duas naves, com 26 mil metros quadrados de área total, que foram construídas em um terreno de 123 mil m².

O empreendimento foi inaugurado em 2014, como parte do portfólio da joint venture entre a Prologis e a antiga Cyrela Commercial Properties (hoje Syn Prop & Tech). Em 2017, a Prologis adquiriu 100% do negócio.

A construção das duas naves logísticas ficou a cargo da Ralc Construções, uma construtora de Manaus.

A Ralc teve uma incursão no mercado paulista nos anos de 2010 e construiu projetos logísticos em cidades como Arujá, Cabreúva, Campinas, Barueri, Itu, Itupeva e Louveira.

De acordo com o Corpo de Bombeiros de São Paulo, o incêndio durou mais de 12 horas, mobilizando 20 viaturas e 56 soldados da corporação para conter as chamas. Não houve registro de vítimas.

As chamas se alastraram após atingirem cargas de papel higiênico nos galpões. A Suzano armazena cargas de papel no local.

“Não tem como usar o que sobrou após o incêndio,” disse um executivo que conhece bem o galpão. “Agora é preciso ver se houve algum impacto no resto do condomínio.”

No mercado logístico, o incêndio no imóvel da Prologis levantou discussões sobre as causas e se os métodos de combate às chamas teriam falhado em conter o incidente.

02 19 Sergio Agassi ok

Sérgio Agassi, coronel da Reserva do Corpo de Bombeiros e diretor da consultoria S.A.O Segurança Contra Incêndio, diz que galpões como o da Prologis estão tipificados como J4, a classificação mais alta para o armazenamento de produtos combustíveis ou inflamáveis, que são aqueles com potencial de “altíssima carga de incêndio”.

É comum que empreendimentos do tipo J4 não tenham a área compartimentada com paredes e portas corta-fogo, por uma questão logística. Em vez disso, as empresas usam sprinklers, uma espécie de “chuveirinho” de alta vazão de água que é acionado em caso de aumento da pressão e da temperatura do ambiente.

Nas versões mais potentes, quando acionados em caso de incêndio, cada unidade de sprinkler pode liberar de 400 litros a 600 litros por minuto.

Segundo Agassi, os sprinklers têm três funções primordiais diante de um incidente. 

A primeira é alertar sobre o incêndio e evitar vítimas humanas. A segunda, conter a propagação das chamas, resfriando o ambiente. A terceira, efetivamente apagar o foco de incêndio.

“Os sprinklers instalados em um galpão precisam ser proporcionais ao risco que existe ali naquele local,” ele diz.

Nas imagens divulgadas pelos bombeiros, é possível ver que o teto do galpão cedeu, restando apenas as colunas estruturais.

Na avaliação de Agassi, no caso da Prologis, dado o tamanho do estrago, uma hipótese inicial seria de que o equipamento de contenção pode ter apresentado alguma falha técnica, o que o impediu de conter o avanço das chamas.

“Se me perguntassem, como coronel dos Bombeiros, pela minha experiência, qual seria uma das alternativas com a maior possibilidade, eu diria que o sistema de sprinklers não funcionou adequadamente para minimizar o incêndio,” ele disse. “Às vezes, só pelo fato de um sprinkler estourar e liberar a água, já se resfria a região e se contêm as chamas.”

As possíveis falhas dos equipamentos de contenção de chamas vão ditar em breve a batalha entre as empresas de seguros para ver quem assinará o cheque de mais esse prejuízo milionário da Prologis.

“As seguradoras agora vão passar o pente fino e buscar todas as informações para caçar o que ficou para trás.”

A Prologis disse que o galpão possuía Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) vigente e em conformidade com as exigências legais. “A área foi isolada preventivamente, e as causas do incidente serão apuradas,” disse a empresa.

“A Prologis está colaborando integralmente com os órgãos responsáveis e adotando todas as medidas necessárias para garantir a segurança das pessoas, das operações e das instalações.”

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