O novo Canecão vem aí — e promete não atrapalhar o trânsito

Um dos palcos históricos da música brasileira, o Canecão está voltando.
Depois de a icônica casa de shows fechar as portas em 2010, um novo complexo está sendo construído no mesmo terreno de 15 mil metros quadrados da UFRJ onde ficava a antiga estrutura, já demolida.
O projeto está sendo tocado pelo consórcio Bonus Klefer — formado pela Bonus Track, de Luiz Oscar Niemeyer, e a Klefer, do ex-radialista e empresário Kleber Leite — que venceu o leilão realizado em 2023, com um lance de R$ 4,35 milhões, e prevê investimento total de R$ 270 milhões no espaço.
A concessão é de 30 anos, e o empreendimento tem previsão de abertura no final de 2027, quase duas décadas depois do fechamento.
O funding para tirar o projeto do papel combina capital próprio e de parceiros estratégicos, que ainda serão anunciados. O consórcio diz que o caixa necessário para executar a obra já está garantido.
O terreno está inserido em uma das áreas mais reguladas da cidade, dentro do campus da Praia Vermelha, na Urca, um bairro com gabarito limitado a 20 metros de altura, forte proteção paisagística e restrições ambientais ligadas ao Morro da Viúva.
Por anos, as camadas de controle transformaram o antigo Canecão em um imóvel praticamente impossível de ser reativado. O edital que a universidade lançou no fim de 2022 refletiu esse impasse: ninguém apareceu para disputar.
“As condições do edital eram muito difíceis: eram questões de garantias, de entrega, de limitação de construção, de usabilidade que, quando a gente colocava no papel, não faziam sentido,” Andre Torós, o CEO do consórcio Bonus-Klefer, disse ao Metro Quadrado.
A ausência de interessados na primeira rodada forçou a UFRJ e o BNDES a voltarem à mesa com o mercado para redesenhar as regras da concessão.
O objetivo era encontrar um modelo que preservasse o valor histórico e urbanístico do Canecão, mas que também fosse capaz de sustentar um investimento privado de longo prazo no ativo.
Com o edital já reformulado, o consórcio carioca enfrentou a incorporadora paulista WTorre, e venceu a disputa com uma proposta que ampliava em quase três vezes a área construída em relação ao projeto apresentado no roadshow pela própria UFRJ – de 7 mil m² para 20 mil m².
A ampliação foi um processo difícil porque o edital da UFRJ permitia que apenas 30% do terreno de 15 mil metros quadrados fosse ocupado por construção no nível do solo, então o projeto precisou crescer até chegar ao limite de 20 metros de altura do gabarito local.
O projeto de João Niemeyer, sobrinho de Oscar Niemeyer, transformou o que seria uma sala multiuso em um espaço com oito unidades de entretenimento integradas.
Além da grande sala de espetáculos, o plano inclui o Museu da Música, estúdios de criação, espaços de exposição, microteatro, áreas para eventos corporativos, e um bosque aberto ao público, que funcionará de forma independente da programação interna do complexo.
“Quando aumentamos o projeto, começamos a ver que podíamos sair um pouco da caixinha do que seria a grande sala. Esse projeto não pode funcionar como uma casa padrão de shows, que abre nos finais de semana. É um espaço vivo,” ele disse.
O projeto arquitetônico também precisou partir de uma das poucas estruturas preservadas do antigo Canecão: um mural que Ziraldo pintou na década de 70, com 32 metros de largura e seis de altura.
Em vez de ser tratado como uma coisa à parte, o mural se tornou o eixo em torno do qual todo o complexo foi desenhado.
“Foi um desafio muito grande: demolir tudo e deixar essa parede gigantesca,” disse Torós. “O projeto foi pensado de trás para frente para integrar o mural no complexo, que no edital referencial não era integrado.”
Inaugurado em 1967, o Canecão foi por décadas a principal casa de shows do País até fechar as portas em 2010.
Dado esse histórico como casa de espetáculos, o edital da UFRJ pedia que as empresas participantes comprovassem experiência na gestão de equipamentos de entretenimento de grande porte – o que não foi um problema para a Bonus Track e a Klefer, parceiras em diversas empreitadas desde a década de 90.
A Bonus Track já administra o Teatro Prio e também cuida de grandes eventos como o Todo Mundo no Rio, que já levou Madonna e Lady Gaga para as areias de Copacabana – e promete mais uma surpresa este ano.
O próprio Luiz Oscar Niemeyer – um veterano da noite carioca – realizou vários espetáculos e turnês no antigo espaço, o que o faz nutrir uma memória afetiva e carinho pela casa.
Como parte da concessão, o consórcio terá que construir para a UFRJ um prédio acadêmico vizinho ao Canecão e um restaurante universitário dentro do campus da Praia Vermelha, ali do lado.
A obra deve ser entregue no final de 2027 junto com a agenda de shows, e a expectativa do consórcio é que o complexo receba cerca de 1,5 milhão de pessoas por ano.
A grande sala, o coração do projeto, terá capacidade para até 6 mil pessoas em pé ou 2,7 mil sentadas; as arquibancadas laterais terão ingressos mais baratos – um elemento que era central no antigo Canecão.
O espaço terá apenas 50 vagas de estacionamento, destinadas exclusivamente a staff, artistas e operação.
Para o público, está sendo desenhada uma operação específica de chegada e saída no bairro com a CET-Rio.
A proposta é concentrar pontos fixos de embarque e desembarque de carros de aplicativo e táxis fora da via principal e usar uma grande esplanada em frente ao prédio como área de absorção do público.
“Também estamos avançando em parcerias para o uso do estacionamento do Shopping RioSul, que opera em horários complementares aos dos eventos do Canecão. Isso amplia significativamente a oferta de vagas sem gerar sobrecarga no entorno,” disse Torós.
Ao fim dos 30 anos de concessão, todo o complexo retorna para a UFRJ, que decidirá o destino do ativo.







