O projeto hoteleiro de Maricá que encantou Cannes

O projeto hoteleiro de Maricá que encantou Cannes
|

CANNES — A cidade de Maricá, no interior do Rio, foi um inesperado destaque da principal feira de real estate do mundo.

A delegação fluminense deixou os franceses en état de choc ao (literalmente) levar samba, feijoada e caipirinha ao MIPIM na semana passada – e voltou para casa com o prêmio de megaempreendimento imobiliário do ano pelo projeto Maraey, um complexo hoteleiro da empresa espanhola Abacus e do qual a prefeitura será sócia através do seu fundo soberano, administrado pela Maricá Global Invest.

O reconhecimento coroa a insistência da família Izquierdo, que luta para levantar o Maraey há quase 20 anos; e da prefeitura de Maricá, que frequenta o MIPIM há mais de uma década – desde que enriqueceu com os royalties do petróleo – para dar visibilidade e tentar atrair investimento à cidade.

Também concorriam na categoria o Reserva Raposo, um projeto de habitaçāo social da RZK em Sāo Paulo; o complexo de escritórios Zudo, em Amsterdam, na Holanda; e A’Thuraya City, uma urbanização de luxo em Muscat, Omã.

Há pelo menos 50 anos, promotores imobiliários tentavam sem sucesso construir um complexo hoteleiro em Maricá, uma cidade a 50 quilômetros a leste do Rio, entre Niterói e Saquarema.

A região desejada – entre a Lagoa de Maricá e a praia – possui uma área de restinga, uma vila de pescadores e uma aldeia indígena, levando diversos projetos a empacar por questões ambientais.

Isso começou a mudar quando, em 2008, o empresário espanhol Emilio Izquierdo Jimenez comprou o terreno de 8 milhões de metros quadrados de um grupo português e se propôs a tentar uma nova abordagem para o projeto.

Nos anos que se passaram, o Maraey foi ganhando um viés cada vez maior de proteção ambiental, o que resultou em 81% de área preservada no desenho final do empreendimento.

Mesmo assim, o caminho foi tortuoso, com batalhas judiciais que se arrastaram por anos, até que o STJ permitiu a retomada das obras – paradas pela Justiça desde 2023 mesmo após a obtenção de licenças ambientais – no ano passado.

No processo, Izquierdo Jimenez, que foi CEO do projeto entre 2008 e 2018, passou a batuta para o filho, Emilio Izquierdo Merlo, que continuou brigando pelo empreendimento e – ao que tudo indica – vai finalmente conseguir concluir a sua construção.

O grande aliado (e sócio) dos Izquierdo na epopeia Maraey é Washington Quaquá (PT), o prefeito que trabalha para transformar Maricá a partir dos royalties de petróleo.

03 14 Emilio Izquierdo Merlo ok.jpg

Desde 2013, com o início da exploração do pré-sal, a cidade passou a receber repasses relevantes, que se tornaram bilionários a partir de 2017 e elevaram Maricá ao posto de um dos maiores PIBs do Brasil.

Com os bolsos cheios e tudo por fazer, Quaquá investiu no básico, educação, saúde e transporte público, mas quis ir além: criou um fundo soberano para aportar, entre outras coisas, no setor imobiliário, a fim de reduzir a dependência econômica da cidade da indústria de óleo e gás.

“Em vez de deixar bilhões parados no sistema financeiro, estamos investindo no território, comprando áreas estratégicas, estruturando projetos e valorizando regiões com potencial real de crescimento,” o político disse ao Metro Quadrado. “A construção civil e o turismo têm um poder enorme de gerar emprego e movimentar a economia.”

O veículo, que atualmente administra mais de R$ 2 bilhões, já investiu, por exemplo, nos primeiros hotel e shopping da cidade, que serão operados por parceiros da iniciativa privada, em diversos aparelhos culturais e na urbanização da orla da praia de Itaipuaçu.

O Maraey também entrará para o portfólio – até que surjam investidores interessados – e agora Quaquá e equipe buscam parceiros para outros projetos, como um porto para a cidade e um novo aparelho hoteleiro, batizado de Complexo Samba, Futebol e Caipirinha.

Assim, e ainda que a insegurança jurídica e a legislação ambiental do País sejam entraves à entrada de capital externo, Abacus e a Prefeitura têm peregrinado as principais feiras de turismo e imobiliárias do mundo apresentando a cidade e passando o chapéu.

O estande de Maricá no MIPIM foi crescendo ao longo dos anos, culminando este ano em um espaço nobre com direito a uma varanda, estilizado pelo artista plástico Gringo Cardia.

Ali, de frente para o Porto de Cannes, executivos gringos beberam caipirinhas, provaram feijoada e dançaram ao som da bateria da escola de samba União de Maricá e de artistas como Neguinho da Beija-Flor e Jô Borges.

03 13 Washington Quaqua ok.jpg

Grata pela festa, a comunidade da feira votou e elegeu o Maraey o megaempreendimento do ano.

A primeira fase do complexo, que deve levar pelo menos mais três anos para ficar pronta, contará com três hotéis da rede Marriott: um Ritz-Carlton Reserve, umas das bandeiras mais exclusivas da marca, com cerca de 50 bangalôs; um JW Marriott com 120 quartos e campo de golfe; e um Autograph Collection com a marca Rock in Rio, que terá 912 quartos e áreas comuns que se transformam em uma arena para 7 mil pessoas à beira-mar. 

Haverá ainda um centro hípico e uma escola de tênis, que será tocada em parceria com a Fundação Maria Esther Bueno. 

O projeto também terá uma forte veia sustentável, incluindo a requalificação da comunidade de pescadores de Zacarias; o estabelecimento de uma unidade da Universidade de Hotelaria de Lausanne para 700 alunos; e a criação de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) de 400 hectares.

O investimento nesta etapa será de US$ 800 milhões, dos quais 60% serão financiados por Banco Mundial, Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe e Banco Interamericano. Abacus e Prefeitura de Maricá também irão aportar.  

As fases seguintes do projeto, que ainda necessitam de captação, incluem imóveis residenciais.

*O repórter viajou a convite da How2go, empresa que lidera a delegação do País no MIPIM e assessora companhias brasileiras em processos de internacionalização de negócios

Siga o Metro Quadrado no Instagram

Seguir