Opinião/ Quer crescer profissionalmente? Esqueça o home office

O home office ganhou status de solução definitiva depois da pandemia. Reduziu deslocamentos, aumentou a autonomia dos trabalhadores e, em muitos casos, elevou a produtividade medida no curto prazo.
Mas uma nova pesquisa acadêmica sugere que esse ganho pode vir acompanhado de um custo silencioso: menos aprendizado e menor crescimento profissional ao longo do tempo.
O estudo foi conduzido por economistas do Federal Reserve de Nova York, da Universidade da Virgínia e de Harvard e analisou engenheiros de software de uma grande empresa da Fortune 500 entre 2019 e 2024 — antes da pandemia, durante o choque do trabalho remoto e no retorno gradual aos escritórios.
O objetivo era entender o papel da proximidade física entre colegas no aprendizado, na produtividade e na progressão de carreira.
O desenho do experimento chama atenção. A empresa operava em um campus com dois prédios separados por poucos quarteirões. Alguns times ficavam concentrados em um único prédio; outros eram divididos entre os dois. Essa alocação não foi escolhida pelos trabalhadores nem pelos gestores — era fruto de restrições logísticas.
Com a pandemia, todos passaram a trabalhar remotamente. A proximidade física caiu a zero para todos os grupos, criando um choque exógeno que permitiu comparar trabalhadores que antes tinham alta proximidade com colegas com aqueles que já operavam de forma mais dispersa.
Antes da pandemia, os resultados eram claros: equipes fisicamente próximas recebiam cerca de 22% mais feedback sobre o código produzido.
Esse feedback vinha, sobretudo, de profissionais mais experientes para os mais jovens — comentários, correções e sugestões que raramente aparecem em reuniões formais. Eram interações espontâneas: conversas rápidas, dúvidas tiradas no corredor, observações feitas ao lado da mesa.
Esse efeito era particularmente forte entre profissionais em início de carreira, para quem a mentoria informal é uma fonte central de aprendizado.
Havia, no entanto, um custo de curto prazo. Engenheiros que trabalhavam próximos produziam menos código. Segundo o paper, a produção mensal era cerca de 23% menor, especialmente entre os profissionais mais seniores, que dedicavam parte do tempo a orientar colegas menos experientes.
E é aqui que o estudo se torna mais interessante e avalia o longo prazo.
No período pré-pandemia, os profissionais que trabalhavam próximos tinham menor probabilidade de receber aumentos salariais, pois produziam menos códigos.
Mas, após um tempo, e depois de terem se desenvolvido mais, acabaram tendo mais promoções, mais aumentos salariais — e mais mobilidade para empregos melhores fora da empresa.
O home office resolve problemas imediatos: conforto, autonomia, foco. Mas cria um custo invisível: menos aprendizado informal, menos transmissão de conhecimento, menos formação de gente boa. Em outras palavras: a proximidade física reduz a produtividade hoje, mas aumenta o valor do trabalhador amanhã.
Por isso, muitos jovens acham que estão ganhando liberdade. Mas podem estar abrindo mão da coisa mais importante da carreira: crescimento real. Conforto passa. Capital humano fica.
Leonardo Siqueira é economista e deputado estadual em São Paulo pelo Novo. Antonio Daniel é economista.







