Em Boston, uma revitalização que fracassou

Em Boston, uma revitalização que fracassou
|

BOSTON – Dez anos atrás, empresas do mercado imobiliário tentaram emplacar em Boston o sucesso do momento em Miami e Nova York: condomínios luxuosos que oferecem todo tipo de serviço aos moradores.

A ideia começou bem, e a cidade registrou a maior venda de apartamento da sua história – US$ 30 milhões – mas o boom durou pouco.

No centro da tentativa está o bairro de Seaport, por décadas a parte mais esquecida de Boston, lotada de estacionamentos abertos, mas com um bom ativo: a vista desobstruída para o mar.

A união de terrenos vastos e baratos com uma vista privilegiada soou como música para os ouvidos das incorporadoras da região.

Pouco a pouco, todos os estacionamentos se tornaram canteiros de obras, e depois abrigando uma ou até duas novas torres modernas, esbanjando largas vidraças e serviços incomuns para os prédios da cidade, a maioria centenários.

A revitalização provocou um forte crescimento da oferta.

De 2013 até 2018, 1,5 mil novos apartamentos de luxos foram construídos em Boston, volume que se acentuou entre 2019 e 2025, com 2,5 mil novas unidades, segundo a imobiliária Collaborative Companies.

O avanço, no entanto, se mostrou insustentável.

Hoje, vendedores precisam oferecer descontos e cobrir custos da compra para se livrar das unidades. 

A venda de imóveis acima de US$ 3 milhões na região central de Boston, onde Seaport está inserida, caiu 35% durante o segundo trimestre de 2025 ante o mesmo trimestre em 2024, segundo a Collaborative Companies, enquanto o mercado de Boston como um todo teve queda de 11%.

No St. Regis Residences, um prédio espelhado com vista para o mar, 40% das 114 unidades ainda não foram vendidas, quase três anos depois de o edifício receber os primeiros moradores.

O próprio incorporador da torre, Joe Cronin, está tentando vender a sua cobertura no edifício por US$ 49,5 milhões – o maior valor já listado para um apartamento da cidade.

Em entrevista ao Boston Globe, ele disse que uma série de problemas internos e externos afetou o crescimento do mercado de luxo no Seaport.

Uma das questões do St. Regis foi a precificação. A diferença entre os apartamentos virados para o mar e para a cidade se revelou baixa, enquanto a prática do mercado costuma ser uma distância de até 50%.

A região também foi afetada pela pandemia, que esfriou a demanda, atrapalhou o cronograma de obras e ainda gerou juros maiores para conter a inflação – um combo do qual o mercado nunca conseguiu se recuperar, segundo agentes imobiliários.

Para reduzir danos, o incorporador do St. Regis leiloou 10 unidades no final de 2023, das quais cinco foram compradas pelo bilionário George Haseotes, cuja família fundou a rede de lojas de conveniência Cumberland Farms.

Siga o Metro Quadrado no Instagram

Seguir