No RS, quem perdeu a casa só agora está ganhando um novo lar

No RS, quem perdeu a casa só agora está ganhando um novo lar
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MUÇUM, Rio Grande do Sul – Passados dois anos das enchentes, as famílias gaúchas de baixa renda que perderam suas casas só agora estão começando a receber novas habitações.

Após a tragédia, o governo de Eduardo Leite planejou bancar a construção de mais de 2 mil novas moradias, mas os primeiros grupos só passaram a ter as chaves em mãos nos últimos meses.

Até o momento, apenas 10% do planejado ficou pronto, e a expectativa do governador é que a maior parte do restante seja entregue até o fim do ano.

A demora é explicada pela dificuldade de achar terrenos que possam abrigar as novas habitações. Uma das  preocupações é encontrar espaços disponíveis com altitude mais elevada e que tenham ficado fora da mancha atingida pelas chuvas.

Uma alternativa tem sido promover desapropriações, mas as negociações levam tempo.

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E mesmo quando um terreno é encontrado, o governo pode se deparar com alguma barreira geológica no início dos trabalhos para dar à área a infraestrutura básica (postes de luz, calçamento, ruas etc) – o que pode abortar o projeto.

O governador também tem buscado levar em consideração o aspecto cultural, evitando que famílias tenham que refazer suas vidas fora de onde fincaram raízes.

“Não se trata apenas de construir onde é mais fácil, porque muitas vezes não será o lugar onde as famílias estão dispostas a morar,” ele disse a jornalistas durante a inauguração de uma nova leva de habitações, na cidade de Muçum, em uma das regiões mais afetadas.

No município, foram entregues 42 habitações, e outras oito estão em fase final, num projeto tocado pelo governo junto com o Movimento União BR, a única ONG que tem trabalhado junto com o poder público em projetos de habitação para os afetados pelas enchentes.

O Movimento União BR foi criada em 2020 por Tatiana Monteiro de Barros para trabalhar na crise da Covid-19, como um grupo de WhatsApp, ainda sem CNPJ.

A iniciativa cresceu, se formalizou e se especializou em trabalhos voltados para emergências climáticas, começando a atuar no Rio Grande do Sul em 2023, quando ocorreram as primeiras enchentes.

A ONG tinha um plano ambicioso de construir 500 novas moradias no estado, mas precisou reduzi-lo para 116 unidades, como consequência da morosidade dos processos envolvendo os terrenos.

Reuniu R$ 12 milhões em doações de 60 empresas e conseguiu viabilizar dois projetos, o de Muçum, com 50 casas, e outro em Bom Retiro, com 66, ainda em obras.

Em Muçum, enquanto as casas foram bancadas pelo Movimento União BR, o governo estadual gastou R$ 1,9 milhão para fazer a infraestrutura e a pavimentação do novo loteamento.

As primeiras habitações foram entregues em dezembro, depois de quatro meses de obras tocadas pela SteelCorp, empresa especializada em construções que usam perfis de aço para industrializar os processos.

“São habitações que estão sendo entregues com uma estrutura mais resistente, muros de contenção, conforto térmico e tecnologia antimofo,” disse Tatiana.

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Uma das primeiras a se mudar para a área foi a faxineira Inês Rodrigues, de 49 anos, que já vivia em Muçum antes das enchentes, na parte mais baixa da cidade, e passou um tempo morando com uma comadre até receber o novo lar.

Depois de assistir ao discurso do governador sentada numa cadeira de praia na calçada de uma vizinha, ela disse ao Metro Quadrado que a sua antiga casa era maior, feita de madeira trabalhada, mas que agora se sente mais segura contra eventuais novas tragédias.

Inês e as outras famílias estão vivendo em lares de 51 metros quadrados e que foram entregues com os móveis mais essenciais, e com utensílios fornecidos por algumas das empresas doadoras, como a Tramontina.

Agora, ela está trabalhando para montar o resto da casa. “Eu já montei a cozinha, o meu quarto e agora só falta o banheiro. Estou me endividando, mas estou montando,” disse a faxineira, que está morando ao lado dos mesmos vizinhos de antes.

Além das casas que estão sendo bancadas pelo governo gaúcho e pela UniãoBR, há ainda o programa Porto de Entrada, criado pelo estado após as enchentes, que ajuda as famílias a pagar a entrada do Minha Casa Minha Vida, e o Compra Assistida, do governo federal, que dá subsídios para a aquisição de imóveis já prontos de até R$ 200 mil.

E há também o programa do Ministério das Cidades que contrata construtoras para erguer casas novas no estado (também de até R$ 200 mil), bancadas pela União. O projeto prevê 11,5 mil residências em 10 cidades.

Para participar, as empresas precisam receber uma carta-convite dos municípios. Com o documento em mãos, vão à Caixa Econômica Federal para pedir a liberação do subsídio.

A Alea, a investida da Tenda que atua com casas pré-moldadas, já tem um acordo com a Prefeitura de Canoas para construir 1,5 mil unidades.

 

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