Opinião/ Como as cidades podem combater o calor

Como as cidades podem combater o calor
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A “cabana primitiva” é um dos mitos fundadores da arquitetura ocidental.

O conceito exposto por Marc-Antoine Laugier no século 18 indicava que haveria uma técnica fundadora das maneiras de edificar por meio de sistemas básicos trilíticos, feitos por troncos de árvores, mesclados com a natureza.

Se a madeira foi o material primordial da construção por milênios, a industrialização, o concreto, a explosão da urbanização, os automóveis e os pavimentos asfálticos transformaram paulatinamente o ambiente construído em sistemas de extração de recursos naturais, indutores de pegadas gigantescas de carbono, e em fornos dentro dos quais agora vivemos, especialmente nas regiões tropicais, que emularam o modo de construir de seus colonizadores.

Contudo, nas nascentes engenharias urbanas do século 19, as árvores eram parte inseparável da infraestrutura. 

Ruas eram abertas, alargadas e construídas, com zelo e atenção para o plantio, proteção e irrigação de mudas, que é quando surgem as equipes de manutenção do espaço público. 

A domesticação das árvores dentro da cidade visava originalmente manter laços com o natural, dadas as novas grandes dimensões urbanas, e ofertar alento, beleza e pacificação das mentes e dos corpos estressados pela urbanização.

Assegurar cobertura vegetal para as mesmas novas ruas de circulação de veículos a combustão foi um investimento acertado ao longo do tempo, com dividendos em domínio público e privado.

Estudos indicam que imóveis próximos a ruas arborizadas de grande porte apresentaram uma valorização entre 7% e 15%.

Além disso, um estudo na Finlândia revelou que, para cada quilômetro de afastamento de uma floresta urbana, o valor da propriedade diminui em 6%. Tal valorização imobiliária retorna em receita aos cofres públicos por meio do IPTU, por exemplo.

No Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), nós temos colaborado com prefeituras com conhecimento, consultorias, formação de capacidades e, lógico, com financiamentos de impacto.

Ajudar a desenvolver boas cidades, com qualidade de vida, segurança e prosperidade é nossa meta, e a adaptação ao calor extremo faz parte da busca incansável pela excelência urbana.

A arborização urbana impacta positivamente a saúde pública, reduz custos de consumo de energia elétrica e ajuda a mitigar ondas de calor.

Em Medellín, a criação de 30 “corredores verdes” reduziu a temperatura média urbana em 2°C em apenas três anos.

As árvores também sequestram carbono e filtram poluentes do ar: o plantio planejado de 4 mil árvores em Buenos Aires absorverá 6 mil toneladas de CO2 por ano, e estudos mostram que o aumento da cobertura vegetal pode reduzir em 10% as concentrações de partículas finas (PM2,5) locais.

Além disso, copas arbóreas interceptam chuvas intensas em uma cidade dos EUA. Elevar a cobertura reduz o escoamento de águas pluviais, mitigando enchentes e aliviando a infraestrutura de drenagem.

Estranhamente, o custo-benefício da arborização não tem resultado na sua priorização como solução.

Diante de tantos temas concorrentes nas gestões municipais, o plantio de árvores não tem ganhado atenção ou visibilidade.

Se sua adoção como infraestrutura verde nas cidades tem tanta história por simples motivação estética, suas vantagens sistêmicas infelizmente parecem não motivar esforços atuais, mesmo com tantos dados e evidências.

Como um ar-condicionado gigante, superfícies urbanas sombreadas por árvores, especialmente o asfalto, podem ficar de 11ºC a 25°C mais frias do que áreas expostas.

É necessário investir na pesquisa e reforçar as capacidades tanto dos responsáveis ​​municipais como da população para promover soluções adaptadas às realidades locais. Por exemplo, o município de Providência, na Santiago metropolitana, no Chile, produziu um catálogo de espécies de plantas e árvores que requerem menos água para a sua manutenção.

A resposta para ondas de calor extremo também precisa ser rápida e eficaz. Uma vez mais: mirando o passado, encontrávamos coretos, fontes, chafarizes que atuavam como mobiliário urbano de amenidades ambientais, oferecendo conforto e lugares de socialização.

Em Belo Horizonte, estamos apoiando a Prefeitura com a prototipagem de inovadores refúgios climáticos, que poderão ser permanentes, como novas categorias de micro equipamentos comunitários, ou temporários, como ação de atenuação em crises de calor extremo. 

Conseguiríamos imaginar novos designs que protejam a integridade física do corpo humano, oferecendo água, descanso e sombra, tudo ao mesmo tempo? É uma inovação urbano-climática para tempos quentes.

Em Quito, no Equador, estamos fomentando novos tipos de mobiliários que captam e armazenam águas pluviais e fornecem sombra em espaços públicos que não a possuem.

No Brasil, projetos de habitação social no Paraná e em João Pessoa estão sendo executados prevendo novos materiais de construção, e melhor ventilação, visando maior conforto térmico e menores contas de energia para a população atendida.

Após um experimento em Tandil, na Argentina, hoje, no Suriname, estamos escalando sistemas digitais de gestão de arborização urbana, utilizando reconhecimento de árvores em imagens de satélite com inteligência artificial.

Os desafios recentes parecem nos encurralar, mas existem saídas inovadoras combinando lições do passado, como a arborização urbana, com tecnologia, dados e capacidades digitais. Isso não apenas mitiga os impactos ambientais, mas também impulsiona o desenvolvimento econômico, a inovação e a qualidade de vida nas cidades brasileiras.

Washington Fajardo é arquiteto e coordena o Cities LAB, do BID.

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