Do Museu do Ipiranga ao Nacional: dois arquitetos e dois desafios históricos

Do Museu do Ipiranga ao Nacional: dois arquitetos e dois desafios históricos
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Apenas um escritório de arquitetura poderá dizer que esteve à frente do restauro do Museu do Ipiranga e da reconstrução do Museu Nacional.

O H + F Arquitetos, de Pablo Hereñú e Eduardo Ferroni, é o único que venceu os dois editais públicos – e com isso se colocou diante de duas missões históricas bem diferentes.

De um lado, no Museu do Ipiranga, em São Paulo, um edifício-monumento preservado, com necessidade de ampliação e atualização. Do outro, no Museu Nacional, no Rio, uma construção histórica profundamente afetada por um incêndio, em que quase nada do interior sobreviveu. 

No Ipiranga, a proposta partiu da ideia de que o restauro não seria apenas sobre recomposição material, mas sobre a recuperação de relações espaciais e urbanas que haviam sido alteradas ao longo do tempo.

Inaugurado em 1895, seis anos após a Proclamação da República, o edifício foi concebido como monumento à Independência e hoje abriga um acervo de mais de 450 mil itens, que inclui a histórica pintura “Independência ou Morte!”, de Pedro Américo.

12 19 Pablo Herenu ok12Tudo parte de um olhar muito atento à pré-existência, de pesquisar a história, as questões materiais, o que sobreviveu ao tempo e o que está disponível ali hoje,” Pablo Hereñú disse ao Metro Quadrado

O Museu do Ipiranga fechou em 2013 por problemas estruturais e de segurança, e só reabriu quase uma década depois, em 2022, no ano do bicentenário da Independência.

Somando edifício histórico e ampliação subterrânea, o conjunto passou a ter em torno de 17 mil m² de área construída, criando novos espaços de exposição, auditório e infraestrutura. Antes, o espaço tinha cerca de 10 mil m².

Uma das decisões centrais do projeto foi alterar o acesso do público, passando a entrada principal para uma ampliação subterrânea construída na frente do edifício. 

Nas primeiras décadas de funcionamento, o museu mantinha uma relação direta com o Parque da Independência. Essa configuração foi alterada em 1922, com um novo projeto paisagístico que reduziu a praça e afastou o edifício do parque.

Cem anos depois, a mudança do acesso do público possibilitou que a praça voltasse para a escala anterior.

“Embora materialmente seja tudo diferente do que era antes, o processo de restauro pode também incluir ações de recuperação de coisas que não são palpáveis, mas são sensíveis à experiência,” ele disse.

Já no trabalho do Museu Nacional – feito em consórcio com o escritório carioca Atelier de Arquitetura –, o ponto de partida foi outro, já que o incêndio de 2018 eliminou praticamente toda a estrutura interna do Palácio de São Cristóvão, revelando camadas construtivas que haviam sido sobrepostas ao longo de mais de dois séculos, a maioria feita em madeira. 

Foi D. João VI quem decretou a construção do palácio, em 1818, ainda no período do Brasil Colônia. 

O imóvel era originalmente a residência da família imperial portuguesa, e passou a abrigar o Museu Nacional em 1892, adaptado para receber acervos de antropologia, paleontologia, arqueologia e história natural.

Antes do incêndio, o museu reunia cerca de 20 milhões de itens em seus 13 mil m², incluindo coleções científicas e históricas de relevância internacional, como o fóssil humano Luzia e o esqueleto do dinossauro Maxakalisaurus, além de uma biblioteca com mais de 470 mil volumes.

O Museu Nacional é a instituição científica mais antiga do País e uma das mais antigas das Américas. 

O espaço é vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro desde 1946, e funciona também como instituição acadêmica, com atividades de pesquisa, ensino e extensão, o que acrescenta mais camadas de complexidade à obra.

A reconstrução exigiu refazer pisos, escadas e circulações verticais, além de introduzir novas soluções estruturais e de segurança.

“Muita coisa se perdeu, mas o incêndio abriu a possibilidade de restaurar um aspecto super importante da história do edifício, e também inserir infraestruturas que vão permitir que ele funcione muito melhor nos seus próximos anos de existência,” disse ele.

Fundado em 2002, logo após a formatura dos dois sócios, o Hereñú + Ferroni não nasceu com um recorte específico de atuação, mas foi se concentrando em projetos de concursos, licitações e concorrências públicas.

Antes de chegar ao Museu do Ipiranga e ao Museu Nacional, os arquitetos já vinham de trabalhos para a rede estadual de ensino em São Paulo, que envolviam tanto a construção de escolas novas quanto intervenções em prédios pré-existentes. 

Em 2014, o escritório venceu o concurso para o que seria a nova sede do Museu da Diversidade Sexual, prevista para um casarão tombado na Avenida Paulista. O projeto chegou a ser desenvolvido, mas não foi construído. 

Foi apenas com o Museu do Ipiranga que Hereñú e Ferroni passaram a atuar em um projeto patrimonial daquela escala.

Com o museu paulistano já entregue há alguns anos, o desafio agora é concluir o ciclo do Museu Nacional, que foi reaberto para visitas em julho deste ano, e tem previsão de entrega total por fases até 2028.

Nesse projeto, porém, as questões financeiras têm pesado e influenciado o avanço, já que a obra não contou com um orçamento fechado e garantido desde o ínicio. 

O trabalho tem avançado por etapas, à medida que os recursos são viabilizados – ainda não suficientes.

“O Museu do Ipiranga teve sorte com a celebração do Bicentenário da Independência. Todo mundo queria que ele ficasse pronto. Mas é isso, cada história é uma história, e vamos lidando com as dificuldades que surgem em cada um,” disse Hereñú.

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