Em 2026, a melhor casa do mundo fica em Pernambuco

Vem de Feira Nova, no agreste pernambucano, o melhor projeto residencial de 2026, de acordo com o prêmio internacional Building of the Year, da plataforma ArchDaily.
A Casa de Mainha, de autoria do arquiteto pernambucano Zé Vagner, venceu mais de 3 mil projetos internacionais – muitos deles de famosos estúdios de design – em uma premiação considerada uma das mais democráticas do segmento por levar em conta o voto do público.
Com o resultado, Zé Vagner se viu diante de uma fama repentina, com pedidos de entrevista e novos seguidores nas redes sociais, onde compartilhou todos os detalhes deste trabalho.
“Acho bonito, nesse momento, a gente poder festejar essa arquitetura tão justa, tão adequada e tão responsável,” ele disse ao Metro Quadrado.

Natural dessa cidade de apenas 20 mil habitantes, o arquiteto conta que sempre cultivou um espírito criativo e, desde pequeno, adorava os passeios e visitas à capital. “Eu ficava encantado com a arquitetura de Recife, com todos aqueles prédios.”
Esse fascínio pelas construções da cidade grande apontou um caminho profissional que o levou à graduação em Arquitetura e Urbanismo na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).
Concluiu o curso em 2022 e retornou a Feira Nova para abrir seu próprio escritório. “Hoje atendemos toda a região e trabalhamos em formato híbrido. Alguns colaboradores vivem em outros lugares.”
O projeto premiado, realizado em 2025, surgiu de uma necessidade familiar. A casa de 165 m², construída em adobe na década de 1980 por seu pai, Maurício da Casca, havia passado por uma série de ampliações improvisadas ao longo dos anos, ganhando “puxadinhos”. A falta de planejamento dessas intervenções acabou gerando problemas de ventilação e iluminação.
“Minha mãe é costureira e trabalha em casa. Ao longo dos anos, ela sofreu com doenças respiratórias por conta do ambiente insalubre que a gente tinha aqui,” disse. “Por exemplo, ao meio-dia já precisávamos acender a luz porque os interiores eram muito escuros. Era calor, escuridão, umidade e mofo.”
Diante do cenário, Zé Vagner entendeu que a arquitetura não resolveria todos os problemas de sua mãe, Marinalva, mas poderia ajudar – e muito.
Para enfrentar essa empreitada, era essencial apostar em materiais disponíveis na região, que dialogassem com a construção original, e manter os custos baixos, apoiando-se na mão de obra local.
Zé Vagner planejou as modificações, apostando em novas aberturas para garantir ventilação cruzada. Também aumentou o pé-direito em um dos trechos da área social, criou novas saídas de ar e incluiu uma faixa de cobogós que cria um efeito de luz nos interiores.
O arquiteto ainda demoliu algumas paredes e ampliou a sala, que passou a se conectar ao terraço e ao jardim. Ele também usou concreto pré-moldado para criar brises horizontais e aumentar a proteção solar acima das portas de entrada.

Na fachada, o muro vazado ganhou uma trama de tijolos cerâmicos inspirada na forma como as olarias empilham as peças para secagem. Já a base do muro é revestida com placas de cerâmica originalmente destinadas às chapas de forno das casas de farinha da região.
Para ele, o trabalho rendeu muitos aprendizados. “Consegui experimentar muita coisa. Foi quase um laboratório arquitetônico para mim,” reflete.
Ele conta que se baseou no livro Roteiro para Construir no Nordeste, de Armando de Holanda, uma referência para profissionais locais. “Projetar no Nordeste é muito específico. Estamos nos trópicos e recebemos muita incidência solar. O sol precisa ser encarado como parte fundamental do projeto,” afirma.

Ele faz uma analogia para explicar como a arquitetura retorna às origens ao se inspirar em abrigos da própria natureza local. “É como se a casa fosse um grande pé de juá. Uma grande copa de árvore que protege e faz sombra,” discorre.
Zé Vagner, porém, ressalta que não encara o projeto como uma obra regionalista. Para ele, a leitura atenta do entorno é uma premissa profissional. “Muita gente diz que faço arquitetura regional, mas não concordo. Faço arquitetura brasileira porque esses projetos são um retrato do nosso País,” afirma.
Nesse sentido, para ele, o prêmio cria uma oportunidade de discutir o verdadeiro papel do arquiteto. “Não devemos criar projetos para impressionar ou mostrar quanto dinheiro alguém tem. A arquitetura serve para resolver o problema de alguém,” conclui.
O crédito das imagens em destaque é de Hélder Santana/Divulgação.







