Em BH, o bar dos atleticanos foi abaixo – e vai virar mais uma farmácia

Em BH, o bar dos atleticanos foi abaixo – e vai virar mais uma farmácia
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BELO HORIZONTE – Ao descrever o fanatismo da torcida do Galo, o jornalista e escritor Roberto Drummond disse certa vez que “se houver uma camisa branca e preta pendurada no varal durante uma tempestade, o atleticano torce contra o vento.”

Nos últimos meses, a atleticanada também torceu contra as retroescavadeiras.

O mais tradicional ponto de encontro da torcida alvinegra na capital mineira, o Bar do Salomão, localizado no bairro da Serra, estava condenado desde setembro a ser demolido para dar lugar a uma Droga Raia – a terceira farmácia do quarteirão, e mais uma das milhares que estão tomando as ruas das grandes capitais.

Quando Salomão Jorge Filho, o dono do bar, manteve as portas abertas mesmo após uma festa de despedida que parou a vizinhança em setembro, os torcedores chegaram a entoar o mantra “eu acredito”, o grito que marcou a heroica campanha da Libertadores de 2013.

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Na semana passada, no entanto, a demolição do bar e de dois imóveis vizinhos foi concluída, e sete décadas de atleticanismo vieram abaixo.

O imóvel, localizado no cruzamento entre as ruas do Ouro, Amapá e Palmira, abrigava o comércio da família de Salomão desde 1953.

Começou como uma mercearia, quando os seus avós Jorge Abdalla e Chamesse Dauch desembarcaram da Síria, e se transformou em bar anos depois, com Salomão pai à frente do negócio.

A casa sempre foi de atleticanos, mas nos últimos 30 anos, desde que Salomão Filho tomou as rédeas, a coleção de itens decorativos do Galo foi crescendo e tomando conta do bar, que foi entregue de vez aos atleticanos quando começou a transmitir jogos do time.

Sentar no interior do bar sempre foi uma tarefa quase impossível, já que a maior parte da área era coberta por um balcão triangular informalmente reservado aos habituês da casa.

O grosso da massa ficava mesmo nas calçadas em torno do bar, em uma das várias mesas de plástico ali dispostas, ou até mesmo de pé, na rua, como no estádio.

Ali bebi com amigos em vitórias sofridas e incontáveis derrotas, algumas com um nível de crueldade que só o Atlético é capaz de entregar. 

Mas no jogo seguinte, independentemente do tamanho da decepção anterior, a casa ficava cheia novamente e pulsando em preto e branco.

Para acompanhar a cerveja trincando e o paiero, a estufa da casa estava sempre abastecida com pastel, bolinho de carne e carne de panela.

Nas noites de samba e choro nem os cruzeirenses resistiam ao chamado, assim como na hora do almoço.

Famosa por seus PFs mineiros, à base de feijão tropeiro ou frango com quiabo, a casa vendia pelo menos 200 pratos por dia.

Mas aí veio a Droga Raia.

Quando a rede paquerou Salomão pela primeira vez, em 2023, o atleticano disse a quem quisesse ouvir que não tinha a menor chance de sair do imóvel, do qual ele e suas quatro irmãs eram donos.

Dois anos de insistência depois, uma “proposta irrecusável” o fez mudar de ideia.

Agora, Salomão procura outro imóvel na região da Serra para montar um bar parecido com a antiga casa, “porque igual não vai ser”.

“Os botecos de antigamente, principalmente os de esquina, estão acabando,” disse. “Mas estamos quase fechados com um novo lugar e levaremos toda a decoração para lá. Este tem mais espaço interno, mas acho que parte do pessoal vai preferir continuar do lado de fora.”

Salomão espera inaugurar a nova casa dos atleticanos no fim de março.

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