Opinião/ O novo momento do mercado de escritórios

O novo momento do mercado de escritórios
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Os escritórios estão voltando a ser ocupados não apenas em São Paulo, mas no mundo inteiro.

Os prédios comerciais estão com níveis de ocupação elevados, e em muitas cidades os preços estão subindo acima da inflação.

A retomada é fruto da combinação da redução do home office associada a uma queda na oferta de novos edifícios de escritórios.

Vejamos o caso de Nova York, de longe o maior mercado de escritórios do mundo.

Desde o fim da pandemia, havia uma percepção comum de que Nova York teria problemas graves com o esvaziamento dos seus edifícios comerciais e que isso se tratava de um problema estrutural.

A dependência do transporte público, o clima frio e uma cultura corporativa de “lifestyle balanceado” levaria a uma perpetuação do home office, experimentado durante a pandemia. 

Os dados da CBRE demonstram uma outra história.

Manhattan tinha 11,2% de vacância nos escritórios em 2019, no pré-pandemia; alcançou 19,2% em 2022, no auge do modelo home office; e encerrou 2025 em 15,5%. E os aluguéis dos prédios triple A em Manhattan subiram 14% nos últimos quatro anos.

Nova York está de volta e já é difícil encontrar espaço para locação em escritórios de alto padrão na cidade.

O cenário é exacerbado pela queda substancial na nova oferta de prédios. Manhattan recebia entre 200 e 300 mil metros quadrados de escritórios por ano no pré-pandemia. Em 2025, foram entregues apenas 80 mil metros quadrados, e o pipeline de novos projetos para os próximos anos continua reduzido.

No caso de Londres, observamos uma tendência semelhante, porém com níveis de vacância sistematicamente mais baixos.

Ainda segundo a CBRE, a vacância nos escritórios em Londres era 4,5% em 2019; alcançou 8,8% em 2022, no auge do efeito da pandemia; e caiu para 7,4% em 2025. 

Em Tóquio, há um déficit estrutural de escritórios, e o home office não se ajustou à cultura japonesa. Por lá, a vacância segue a mesma tendência de recuperação no pós-pandemia: 0,7% em 2019, 3,5% em 2022, e 1,6% em 2025. 

Em São Paulo, observamos uma realidade mais semelhante à de Nova York, com a vacância partindo de 18,0% em 2019, alcançando 20,6% em 2022 e caindo para 16,7% em 2025. Os preços de locação de escritórios em São Paulo, especialmente no segmento de alto padrão, estão subindo acima da inflação.

Durante a pandemia, houve muitas previsões equivocadas sobre o futuro dos escritórios.

Algumas empresas chegaram a anunciar o “modelo 100% remoto” para seus colaboradores. Outras implementaram “um dia por semana” de trabalho presencial. Houve um processo de tentativa e erro natural das empresas dada a complexidade do cenário.

As primeiras empresas a voltar para o modelo presencial foram as pequenas e médias de “dono”. São aquelas em que o “dono” toca o negócio no dia a dia e sabe claramente os benefícios de ter as pessoas no mesmo ambiente para construção de cultura, inovação e velocidade entre a tomada de decisão e a ação.

Para esses “donos”, o trabalho remoto foi um mal necessário. Na primeira oportunidade, trouxeram as suas equipes de volta para o trabalho presencial.

Na sequência, os bancos foram aumentando a frequência das equipes nos escritórios, juntamente com as empresas grandes, que implementaram o trabalho híbrido e ao longo do tempo foram aumentando os dias no escritório.

Por fim, vieram as multinacionais que, com suas estruturas muitas vezes engessadas, demoraram mais para implementar o retorno aos escritórios.

Neste processo, muitas empresas se depararam com a falta de espaço nos seus escritórios na medida que chamavam seus colaboradores de volta.

Novos espaços tiveram que ser contratados. Por isso, a vacância cai consistentemente entre 2022 e 2025.

A muito falada conversão de edifícios comerciais em residenciais tem pouco impacto nessas estatísticas. Para referência, em Nova York estão sendo convertidos em média 300 mil metros quadrados por ano em um mercado de 42 milhões de metros quadrados de escritórios, menos de 1% do estoque.

O modelo híbrido hoje é dominante nas empresas, com uma média de um dia por semana de home office. A flexibilidade é uma demanda natural das pessoas e veio para ficar. É uma ferramenta importante na retenção dos talentos. A maioria das empresas já encontrou a sua fórmula ideal depois de alguns anos de ajustes.

A volta ao modelo presencial no escritórios chegou com força em 2025 e foi confrontada com a dura realidade da falta de espaços comerciais disponíveis. 

Felipe Góes é chairman da São Carlos Empreendimentos.

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