O shopping fantasma de Sorocaba e o boom que nunca ocorreu

Um shopping de Sorocaba com obras paralisadas há mais de 10 anos foi finalmente colocado à venda.
O Cheda’s Mall não chegou a ser inaugurado e é mais um de vários projetos de shoppings que não vingaram na cidade, simbolizando o fracasso de uma tese que previa um boom de empreendimentos do segmento na região.
O ativo – que inclui o esqueleto já construído e o terreno – pertence à família Cheda e está sendo ofertado por cerca de R$ 100 milhões, com uma proposta já em negociação, apurou o Metro Quadrado.
Em um terreno de 7,8 mil metros quadrados, o Cheda’s Mall tinha um projeto ousado: um empreendimento de uso misto – desenvolvido de forma faseada – com shopping, uma torre corporativa, um espaço para eventos empresariais e um residencial de alto padrão.
O empreendimento previa um investimento de R$ 30 milhões e 23,5 mil m² de área construída, com entrega da primeira fase em 2012.
O projeto seria o nono shopping da cidade e o terceiro na mesma avenida, a menos de 1 km dos concorrentes.
Mas hoje conta apenas com 11 andares cobertos por tapumes e engrossa a lista de shoppings de Sorocaba que encerraram as operações ou nem chegaram a abrir as portas ao público.
O projeto do Tangará Shopping, por exemplo, chegou a ser anunciado na cidade, mas teve as obras paralisadas pouco depois do início e nunca mais retomadas.
Já os empreendimentos Villagio Shopping e Plaza Shopping Itavuvu abriram as portas ao público, mas sem fluxo suficiente de clientes para manter as operações.
Voltado ao público A e B, o Villagio Shopping fechou em 2015, depois de cinco anos de funcionamento. O Plaza Itavuvu – voltado a consumidores C e D – foi inaugurado em 2012, passou anos sem movimento, e em 2019 foi convertido em uma unidade do atacadista Tenda.
Quando esses empreendimentos foram lançados, Sorocaba tinha pouco mais de 600 mil habitantes – uma proporção de um shopping para cada 66 mil pessoas.
A expectativa era de que os empreendimentos atendessem aproximadamente 1,5 milhão de pessoas dentro da região metropolitana de Sorocaba.
Naquele momento, se a cidade fosse um estado, ocuparia a 17ª posição no ranking nacional de shoppings, à frente de 11 estados, segundo dados da Abrasce.
A cidade chegou a se tornar o terceiro município com maior número de shoppings em São Paulo, mas passou da euforia à pecha de “cidade dos shoppings fantasmas”.

Luiz Alberto Marinho, sócio da consultoria Gouvêa Malls, diz que a história do Cheda’s Mall não é um caso isolado, mas parte de um ciclo de otimismo mal calculado do setor de shoppings no País, entre as décadas de 2000 e 2010.
Marinho lembra que, entre o lançamento do primeiro shopping do Brasil em 1966 – o Iguatemi Faria Lima – e 2006, o País viu nascer 251 empreendimentos. Nos dez anos seguintes, até 2016, mais 100 shoppings foram inaugurados.
“Esse foi o período de ouro do varejo físico, em um ciclo de prosperidade muito grande no Brasil. Ao ver essa onda de crescimento, vimos muito dinheiro da incorporação chegar ao setor de shoppings,” ele disse.
Além dos investimentos institucionais, o boom levou investidores locais a se aventurarem no segmento.
O que eles não esperavam era a crise econômica causada pela quebra do Lehman Brothers, em 2008, que mais tarde também afetaria os negócios no País.
“Vimos projetos que já tinham saído do papel fechando, e aqueles que haviam iniciado as obras adiando ao máximo as inaugurações,” Marinho disse.
Esse ciclo de greenfields se concentrou justamente no interior do País, em cidades onde a concorrência com o varejo de rua ainda é relevante, o que, somado à crise econômica, fez vários negócios serem abandonados.
Hoje, a venda do esqueleto e do terreno do Cheda’s Mall esbarra ainda na vocação da avenida onde o empreendimento foi erguido.
No mercado local, entre potenciais compradores, paira a dúvida sobre a viabilidade de converter o imóvel em unidades residenciais ou manter o perfil de uso misto, com apartamentos e lajes corporativas.







