Setor imobiliário brasileiro engatinha na busca por capital externo

Setor imobiliário brasileiro engatinha na busca por capital externo
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CANNES — Vestidos em vários tons de azul-marinho e loafers, 20 mil executivos do setor imobiliário e do poder público de 90 países tomaram a maior feira de real estate do mundo na semana passada para verem, serem vistos e possivelmente fechar negócios.

Ainda que o tema oficial do MIPIM deste ano tenha sido a crise habitacional no mundo e principalmente na Europa, as crescentes incertezas geopolíticas globais acabaram se tornando o principal tópico de conversa nos corredores do Palais des Festivals de Cannes – com investidores em busca de opções seguras para alocar os € 4 trilhões sob gestão ali presentes. 

A crescente delegação brasileira, que participou das últimas 16 (de 36) edições da feira e parece estar pegando o jeito da coisa, tratou de se apresentar como uma dessas alternativas.

Um exemplo disso é uma grande gestora local, com mais de R$ 20 bilhões sob gestão em real estate, que contratou um executivo estrangeiro para melhor entender a cabeça dos seus pares – e o enviou ao MIPIM como parte de um plano que visa aumentar a exposição externa aos seus produtos imobiliários e de infraestrutura, hoje irrisória.

(Dados da B3 mostram que, no fim do ano passado, players internacionais detinham apenas 4,5% dos FIIs brasileiros em custódia, enquanto a proporção já supera 50% nas ações locais.)

Entende-se que, apesar dos riscos cambiais, o País deveria receber mais cheques porque movimenta volumes expressivos no setor; possui uma democracia estável; não está envolvido em conflitos bélicos; tem um vasto mercado consumidor; e uma importante matriz de geração de energia limpa.

Data centers, logística, infra e residencial de alto padrão foram alguns dos segmentos mais citados em conversas com a reportagem, enquanto o negócio de hospitalidade gerou discordância. 

Por um lado, o turismo é uma vocação do País. Por outro, há quem defenda que o negócio atrai mais operadores do que investidores.

Outra questão recorrente nas conversas é o tamanho do cheque.

Isso porque grandes investidores internacionais geralmente não se mobilizam para investimentos inferiores a US$ 100 milhões de dólares, um valor que pode superar as necessidades de capital de um empreendimento local.

A estratégia neste caso pode passar pela criação de um pool de projetos ou de uma carteira que faça sentido para os aportadores.

Em termos de estrutura, há alguma busca por FIIs e os FIPs podem apresentar benefícios fiscais para estrangeiros, mas o consenso é que as maiores oportunidades de retorno estão no desenvolvimento, via private equity

Nesse caso, a principal dúvida dos gringos é sobre a viabilidade econômica dos projetos.

“O cenário de incertezas globais tem alongado os prazos de saída de investimentos do tipo, e a grande preocupação deles é entender quais são as opções disponíveis,” um gestor disse ao Metro Quadrado

“Mas o capital estrangeiro pode se tornar uma peça-chave para viabilizar projetos de grande escala, desde que saibamos endereçar essas dúvidas sobre liquidez e retorno.”

Com estandes amplos e posicionados em áreas nobres do Palais, a cidade de Maricá, no interior do Rio, e a incorporadora RZK foram à feira justamente buscar parceiros para os seus megaempreendimentos. 

Mas também estavam entre os expositores a Associação Brasileira de Escritórios de Arquitetura (AsBEA) e o Conselho Federal de Corretores de Imóveis (COFECI), que frequenta a feira há 13 anos.

A venda de imóveis durante o evento não é algo trivial, apesar de já ter acontecido, e a entidade foca os seus esforços em vender o Brasil como uma grande oportunidade de investimento.

O COFECI publicita iniciativas como o Golden Visa brasileiro, que permite a obtenção de visto no País mediante investimento imobiliário, e também leva líderes regionais para mostrar alternativas a São Paulo e Rio aos investidores.

Enquanto representantes de Alagoas apresentaram o estado como o “Caribe brasileiro” a players do setor de hospitalidade, Minas Gerais atraiu o interesse asiático no mercado de jazidas.

O grupo brasileiro disputou as atenções dos presentes com cidades do sul da Europa, que buscavam parceiros para suas demandas de habitação e de alto padrão ou tentavam se habilitar como novos hubs tecnológicos; e com potências do Oriente Médio, como Arábia Saudita e Omã, que, mesmo diante das tensões geopolíticas vividas no momento na região, mostraram que possuem projetos nababescos no pipeline.

Para quem gosta de maquetes, a reprodução do projeto do Mukaab – um futuro arranha-céus em Riade com 400 metros de altura e formato de cubo – foi um show à parte.

*O repórter viajou a convite da How2go, empresa que lidera a delegação do País no MIPIM e assessora companhias brasileiras em processos de internacionalização de negócios

 

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