EXCLUSIVO. O projeto que vai trazer o Othon Palace de BH de volta à vida

EXCLUSIVO. O projeto que vai trazer o Othon Palace de BH de volta à vida
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BELO HORIZONTE — Na Avenida Afonso Pena, uma das principais artérias desta capital, um imponente prédio em formato de meia-lua foi o centro das atenções durante quatro décadas — e agora aguarda fechado uma nova chance de pulsar.

Inaugurado em 1978, o Othon Palace chegou a ser o epítome do luxo na cidade, hospedando de presidentes a artistas que vinham se apresentar no Palácio das Artes. 

Mas desde que a rede Othon entrou em recuperação judicial, em 2018, o hotel encerrou as atividades, e o prédio projetado pelo arquiteto Raul de Lagos Cirne permanece fechado.

Os novos proprietários, que investiram R$ 32,4 milhões para arrematar o edifício em 2021, chegaram a divulgar no ano passado um projeto de uso misto que dividiria os 29 andares do número 1050 da Afonso Pena em apartamentos e flats

Agora, no entanto, o Metro Quadrado teve acesso com exclusividade a um novo projeto dos escritórios Play Arquitetura e AR.Lo Arquitetos, que transformará o velho Othon em um prédio residencial para locação.

Lobby Externo

A proposta também contempla áreas semipúblicas, com espaços comerciais na varanda do 3º andar e no terraço panorâmico do 25º, onde a antiga piscina do hotel dividirá espaço com um mirante e um restaurante com vista para a cidade. 

No subsolo, está prevista a abertura de uma boate no estilo “inferninho”. 

As obras devem começar em março de 2026 e serão concluídas em quatro etapas, sendo duas em 2027 e duas em 2028, quando o edifício completa 50 anos. 

As primeiras entregas contemplarão as áreas comerciais e cinco andares residenciais, mas ainda não foi batido o martelo quanto ao número de apartamentos que o prédio terá. O hotel possuía 300 quartos. 

“A construção é modular e permite uma flexibilização do produto,” disse a arquiteta Priscila Dias de Araujo, sócia do AR.Lo Arquitetos. “O próprio fato de ser uma obra faseada permite que os empreendedores façam pequenos ensaios de como o mercado responde e eventuais adaptações.”

Por ora, uma das possibilidades é fazer apartamentos de até dois quartos para serem oferecidos em um modelo de short-term rental.

Com 29 mil m² de área construída de frente para o Parque Municipal, o prédio da década de 1970 também possui diversas áreas que acabaram se tornando obsoletas com o passar dos anos.

“O sistema de ar-condicionado, por exemplo, ocupava um andar inteiro, e a adoção de novas tecnologias vai abrir espaço para pavimentos estratégicos,” disse Marcelo Alvarenga, sócio da Play Arquitetura. 

A reformulação exigiu equipes multidisciplinares e seis arquitetos de cada um dos escritórios, “não só pela questão do tamanho, mas também pelo debate, para trazer um pouco mais de troca, diante de um projeto que é diferente de outros empreendimentos simplesmente comerciais,” disse Alvarenga.

Ademais, os donos não parecem ter pressa.

“A lógica do mercado imobiliário, que não tem capital próprio, é fazer o projeto e lançar rapidamente para já começar a vender e viabilizar a obra. Neste caso, a lógica é diferente. São investidores capitalizados que não têm a necessidade de buscar o capital inicial,” disse Ricardo Lopes, outro sócio do AR.Lo Arquitetos.

O edifício foi adquirido pela Alffa Empreendimentos Imobiliários, que tem como sócios Fernando Cesar Marques de Souza e Antônio Luciano Pereira Neto, o Lucianinho, primogênito do polêmico médico e empresário bilionário homônimo que morreu em 1990, deixando milhares de terrenos e dezenas de herdeiros. 

Lucianinho e uma das irmãs, Anna, mantêm dois outros icônicos hotéis no Centro, herdados do pai. O Financial, também na avenida Afonso Pena, e o Dayrell, na rua Espírito Santo. 

Segundo interlocutores ouvidos pelo Metro Quadrado, ambos estão envolvidos na revitalização do Othon Palace e não pretendem vender nenhuma das unidades do novo empreendimento, apenas alugar.

“Eles têm muita consciência do que o Othon representa para Belo Horizonte. Demos sorte de estar trabalhando para pessoas que reconhecem uma série de valores para a cidade e para a arquitetura,” disse Lopes.

A importância do prédio na história da capital mineira é, inclusive, outro fator que contribui para a demora da conclusão do projeto, já que a Diretoria de Patrimônio, vinculada à Fundação Municipal de Cultura, tem realizado demandas aos arquitetos.

“O Othon não é tombado, mas é tratado como se fosse. Existem várias diretrizes que entende-se que devem ser seguidas, como na fachada, por exemplo, de não haver mudanças significativas, e a gente vem cumprindo,” disse Alvarenga. 

Terraco Piscina e Bar

A reforma será beneficiada pela Lei do Retrofit, regulamentada em junho pela Prefeitura de Belo Horizonte para incentivar a revitalização de prédios antigos no hipercentro por meio de novos usos e benefícios fiscais. 

De acordo com Lopes, foi estabelecida uma parceria com o Poder Executivo e com o ex-prefeito Fuad Noman, que morreu em março deste ano. 

“Apresentamos o projeto oficialmente ao Fuad. Ele gostou muito e colocou toda a Prefeitura à disposição, até puxou a orelha dos empreendedores porque queria dar celeridade à reforma,” disse.

O prédio possui ainda uma galeria comercial de dois andares — mas esse é um caso à parte. 

Com duas entradas independentes, funcionários próprios e diversos proprietários, as lojas que se espalham pelo centro comercial nunca fecharam. 

Por lá, é possível comprar livros, discos, moedas, obras de arte e frequentar outros estabelecimentos, incluindo uma lanchonete, uma lotérica e vários salões de beleza.

A galeria, no entanto, compartilha a infraestrutura com o prédio principal, como explica o empresário Cléber Pio, que está no local há 31 anos. 

3o Andar 1

“O sistema de incêndio vem da piscina que está no terraço. Por funcionar como um reservatório, ela precisa ficar cheia mesmo com o Othon fechado,” disse. 

O mesmo acontece com o padrão de luz, que está na garagem do antigo hotel, de onde seguranças e gerentes da Alffa mantêm o coração do prédio batendo.

“Então existe uma dependência,” disse. 

Apesar disso, Pio afirma que a Alffa nunca fez uma proposta para adquirir as lojas da galeria e os condôminos também não querem contato. “Não há relação, nem conversa.”

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