Opinião/ Lamento de João Gomes mostra que a arquitetura brasileira nega o Brasil

Lamento de João Gomes mostra que a arquitetura brasileira nega o Brasil
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“Os atuais ‘caixões’ de paredes despidas e duras, semelhantes a postos de gasolina, não nos servem, não correspondem ao Brasil.”

O trecho acima, contundente e visceral, compõe o capítulo sobre a Arquitetura do Manifesto Armorial, idealizado e lançado por Ariano Suassuna em 18 de outubro de 1970. Passados 55 anos, o Brasil se vê diante do mesmo espelho, provocado por um ícone jovem e unânime da cultura.

A famosa entrevista do cantor João Gomes, veiculada em dezembro deste ano de 2025 no podcast “Prosa do Sertanejo”, movimentou o País e reacendeu um debate estético e identitário que parecia adormecido, mas que estava entalado na garganta de muita gente.

Nela, o astro do piseiro, com a humildade que lhe é característica e com respeito aos arquitetos, desabafou sobre a frustração de seu projeto pessoal. Sua intenção era simples: construir uma casa de sertão, “grandona de alpendre”. A resposta do mercado, contudo, foi a pasteurização. “Ninguém queria fazer, só queriam fazer casa quadrada,” lamentou ele.

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O desabafo de João Gomes expõe uma ferida aberta na arquitetura e no mercado imobiliário nacional. As varandas e os alpendres, heranças fundamentais da arquitetura colonial portuguesa e adaptadas com maestria ao nosso clima, são elementos estéticos e tecnologias de convivência. É nessas áreas de transição entre o dentro e o fora que reside o verdadeiro valor da casa sertaneja e, por extensão, da morada tropical.

É no alpendre que se mede a hospitalidade pela quantidade de redes que se arma. É ali que se garante o sombreamento gostoso que protege a alvenaria do sol inclemente, permitindo a ventilação cruzada. É o palco onde o forró come solto e onde se celebram as festas de família e da comunidade. Este cenário descreve o “Brasil real”, em contraposição ao “Brasil oficial”, distinção tão bem elucidada por Ariano Suassuna.

Ariano, aliás, dedica quase uma página e meia de seu manifesto para tecer críticas ferozes ao modernismo corbusiano mal digerido, que foi copiado desenfreadamente pelos nossos projetistas e transformado em dogma nas faculdades. Dizia o mestre:

“…A Arquitetura brasileira contemporânea nem é arquitetura, pois é feia, fria e desagradável, nem é brasileira, pois é copiada de Le Corbusier, internacionalista, cosmopolita, requentada, brancosa, cartesiana, de paredes nuas, brancas, retas, e tendo, ainda por cima, desterrado de dentro de si a Pintura, a Cerâmica e a Escultura…”

É provável que João Gomes, artista de sensibilidade ímpar e à altura de seu sucesso estrondoso, ao idealizar sua morada, tenha se transportado para essa ambiência. Em sua fala, é possível imaginá-lo sentado no terraço, olhando para o horizonte da paisagem, acompanhado de sua esposa, família e companheiros de música. Ali, comporia novos versos enquanto assistiria ao voo dos pássaros, veria os meninos correndo no terreiro e saudaria os vizinhos que passam.

Mal sabia o cantor que seu desejo pessoal levantaria uma discussão que correu o Brasil mais rápido que Seriema desembestada na caatinga, ressoando em camadas profundas da arquitetura e urbanismo contemporâneo.

Seja em condomínios fechados de alto padrão, seja em bairros populares, o ponto chave da discussão permanece o mesmo: por que ainda temos vergonha do que é bom, funcional e coerente com o nosso País? Por que o mercado insiste em vender uma imagem de sofisticação que nega a nossa geografia?

Podemos expandir essa reflexão para a inadequação de nossas praças e o paisagismo alienígena que insiste no uso de espécies importadas, como os pinheiros e ciprestes dos jardins parisienses ou toscanos, que nada oferecem à nossa fauna e pouco sombreiam nosso solo. 

Passamos pela iluminação pública ultra “modernosa”, branca e estéril, e chegamos aos materiais frios e internacionalistas, cópias descaradas de tipologias norte-americanas e europeias. 

O resultado são os tais caixotes de vidro, verdadeiras estufas em um país tropical, que se fecham para a rua, negam a calçada e segregam a cidade. E por aí segue a lista de incoerências de um mercado que parece desenhar para as redes sociais, e não para a vida.

A arquitetura que João Gomes pediu e que Ariano defendeu não é um retorno saudosista ao passado, mas um pedido de inteligência bioclimática e cultural. É a busca por uma casa que respire, que abrace e que tenha a cor da terra onde está assentada.

Ao final, o que será da casa de João e dos ideais de Ariano? Talvez, na prática, pouco importe para o curso desenfreado da construção civil. Eles podem tudo, inclusive sonhar. Mas fica a lição: enquanto continuarmos construindo “postos de gasolina” para morar, continuaremos sendo estrangeiros em nossa própria terra.

Dimitri Buriti é arquiteto.

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