Nos canteiros, o novo ajudante de pedreiro vem da China

Nos canteiros, o novo ajudante de pedreiro vem da China
Thaís Soares |

Depois de transformar o trabalho dos metalúrgicos nas linhas de montagem, os robôs começam a ensaiar uma mudança parecida nos canteiros.

Com a falta de mão de obra apertando os custos, a automação virou uma aliada da construtora mineira Minas Brisa, que usa os robôs para diminuir o trabalho braçal dos pedreiros e deixar o serviço pesado com as máquinas. 

Em duas obras de Belo Horizonte, doze dessas máquinas pintam e lixam paredes, nivelam concreto, fazem medições, limpam e transportam materiais.

Enquanto isso, os pedreiros ficam encarregados de aprender a comandar os robôs – um único operador pode cuidar de três ou quatro máquinas do mesmo modelo.

A Minas Brisa foi buscar os novos colegas de obra a quase 17 mil quilômetros de casa, na China, depois de passar três anos viajando ao País atrás de tecnologias para compensar a escassez de trabalhadores. 

Foi numa dessas idas que a empresa chegou à BMR, fabricante dos robôs que hoje circulam por seus canteiros. 

“Queríamos ser clientes e acabamos sendo os primeiros compradores sul-americanos. Quando vimos, a conversa tinha evoluído para sermos uma concessionária deles aqui,” Marcos Almeida Magalhães Jr., o diretor executivo da Minas Brisa, disse ao Metro Quadrado.

Além de comprar os robôs para as próprias obras, a Minas Brisa vai vender as máquinas para outras construtoras – e será a única representante da BMR na América Latina. 

Segundo Magalhães Jr., mais de 10 empresas de capital aberto estão em fase final de contratação das máquinas, enquanto outras 900 companhias se cadastraram para conhecer os equipamentos – que são expostos trabalhando nos canteiros. 

O catálogo da BMR tem mais de 20 modelos, com preços entre R$ 250 mil a R$ 1 milhão. Pelos cálculos da construtora, 99% dos modelos recuperam o investimento antes de completar 10 mil m² de trabalho.

Mais adiante, a empresa planeja criar um modelo de aluguel para manter os robôs trabalhando nos períodos em que não forem necessários em suas obras.

Do lado humano, a crise de falta de funcionários não deve se resolver facilmente, especialmente porque há menos interesse entre os jovens em atuar em funções braçais, frente ao avanço do trabalho por aplicativo. 

Em fevereiro, 41,6% das empresas da construção ouvidas pelo FGV IBRE apontavam a escassez de mão de obra qualificada como uma limitação aos negócios.

No Brasil, outros robôs já tinham começado a aparecer nos canteiros antes da chegada da BMR, mas em tarefas mais isoladas. 

Máquinas de demolição controladas à distância são usadas há anos e, em 2022, um robô indiano de pintura chegou a ser testado por construtoras.

A diferença agora está na escala da automação, com máquinas para diferentes etapas da construção atuando no mesmo canteiro.

A entrada dos robôs muda também o tipo de vaga que a construção pode oferecer a essa nova geração. 

A ideia é deixar com as máquinas uma parcela maior do esforço físico, repetindo uma transformação que começou décadas atrás nas montadoras, quando a automação avançou sobre as linhas de produção e mudou o trabalho dos metalúrgicos.

“Não queremos substituir os pedreiros. Queremos que eles se tornem cada vez mais operadores,” disse Magalhães Jr.

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