O que o Minhocão pode aprender com o High Line de Nova York

O que o Minhocão pode aprender com o High Line de Nova York
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A pandemia devolveu aos parques sua importância na vida urbana — mas isso não se traduziu em mais dinheiro público para esses espaços.

Essa é a leitura de Alan Van Capelle, o diretor executivo do High Line – o parque de Nova York construído sobre uma velha linha de trem elevada que se tornou um dos projetos urbanísticos mais famosos do mundo.

“Nós ainda não conseguimos transformar os parques e espaços verdes em assets tão valiosos quanto museus e livrarias na mente das pessoas,” Alan disse em um evento do Arqfuturo, o laboratório de arquitetura e urbanismo do Insper.

A linha ferroviária do High Line foi construída na década de 1930 para o transporte de cargas — e abandonada nos anos 1980, quando os trens perderam espaço para os caminhões. 

A linha quase chegou a ser demolida, mas os moradores da região fizeram uma petição para preservar a estrutura e discutir novos usos para o espaço.

Desta mobilização nasceu a Friends of the High Line, a organização responsável pela operação do parque suspenso.

O projeto foi inaugurado em 2009 e vem sendo entregue ao público em fases. 

O início da história do High Line Park lembra o dilema do Minhocão em São Paulo.

O Plano Diretor prevê a desativação do elevado até 2029, mas a Prefeitura ainda não decidiu se o caminho será a demolição ou a transformação do espaço em um parque linear.

De um lado, alguns defendem a derrubada, argumentando que o impacto do Minhocão vai além da própria via e se espalha pelo entorno, afetando a dinâmica urbana e a saúde da região. 

Do outro, há quem veja na estrutura uma oportunidade de requalificação, com a possibilidade de transformar o elevado em um espaço de convivência — algo que já acontece, de forma espontânea, quando a via é fechada para carros à noite e nos fins de semana.

Esse uso chama a atenção de Alan, do High Line, que argumenta que o fato de as pessoas já ocuparem o espaço, mesmo sem projeto, indica uma demanda real por esse tipo de ambiente na cidade.

Ao mesmo tempo, ele destaca que projetos urbanos desse porte dependem de uma demanda clara da população para avançar, já que decisões desse tipo passam por escolhas políticas.

“Os cidadãos estão famintos por esses espaços. Eles sobem o Minhocão mesmo sendo concreto e sem nada plantado. Imagine o que aconteceria se fosse colocada uma micro floresta ali,” Alan disse ao Metro Quadrado.

O orçamento anual do High Line Park gira em torno de US$ 24 milhões, praticamente todo financiado por fontes privadas. 

Parte desse dinheiro vem de concessões de alimentos e eventos, além do aluguel pontual de áreas para marcas e ativações. 

Além disso, o parque mantém uma agenda contínua de atividades, com exposições de arte pública, eventos culturais e programas voltados à comunidade, o que ajuda a manter o fluxo de visitantes e o espaço ativo ao longo do tempo.

“Parques não são luxo, são necessidade,” ele disse.

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