O resort de Cancún que teve que sair da zona de conforto

O resort de Cancún que teve que sair da zona de conforto
Larissa Vitória |

CANCÚN – Um dos resorts all inclusive mais conhecidos da zona hoteleira de Cancún está se reinventando para conseguir concorrer com hotéis mais novos que chegaram à região depois da pandemia.

O Paradisus Cancún – que existe há quase quatro décadas – foi reaberto há pouco mais de um mês depois de ficar quase um ano fechado, quando passou por um retrofit completo que custou US$ 50 milhões ao grupo espanhol Meliá Hotels.

O estabelecimento teve que sair da zona de conforto depois de a praia passar por um novo boom iniciado em 2020 – que foi impulsionado pelo fato de que o México não fechou as fronteiras durante a pandemia e trouxe novos nomes de calibre da hotelaria, como as bandeiras Waldorf Astoria e Conrad, da Hilton Hotels.

“Ficamos na dianteira por muito tempo, mas a competição com outras redes começou a tirar parte dos nossos clientes,” Diogo de Carvalho, o hotel manager do Paradisus, disse ao Metro Quadrado.

O resort foi inaugurado em 1989 para surfar o primeiro boom da região, iniciado nos anos 70, depois de o governo do México projetar a cidade para ter outro destino atrativo além de Acapulco.

Com os novos hotéis que chegaram no pós-pandemia, a oferta de Cancún alcançou 35,5 mil quartos divididos em 187 estabelecimentos. Só no ano passado, o crescimento foi de 4,5 mil quartos.

Para bater de frente com os novos concorrentes, o Paradisus começou a traçar o planejamento há três anos.

“Já tínhamos quartos remodelados e várias melhorias de tecnologia, mas, por mais que a estrutura fosse sólida, as áreas não chegavam no mesmo nível das novas redes porque a propriedade já estava antiga,” disse o gerente, que nasceu no Brasil e se naturalizou mexicano.

A solução foi fechar o hotel para uma reforma mais profunda, incluindo a atualização dos sistemas de ar-condicionado e mudanças nos quartos, áreas comuns, de gastronomia e entretenimento para adultos e crianças e na área de eventos.

A expectativa do grupo Meliá é que o retrofit impulsione os principais indicadores operacionais do resort, como a tarifa média, RevPAR e ocupação.

O gerente diz que já é possível observar um aumento da tarifa desde que o resort reabriu, ainda que a ocupação ainda esteja baixa. A projeção é alcançar margens de lucro de até 33%, contra 20% a 22% antes da reforma.

Outro impulsionador deve ser a volta das viagens de turistas brasileiros para o México, com a retomada do visto eletrônico no início deste ano, depois de três anos em que o país só aceitou o visto tradicional, mais caro e mais trabalhoso.

O maior público do Paradisus vem do próprio país ou dos Estados Unidos, mas os brasileiros já chegaram a representar 16% da ocupação, percentual que caiu a 1% no período mais restritivo.

A expectativa da Meliá é de crescimento de 20% no fluxo de turistas brasileiros para o Caribe mexicano.

Apesar do otimismo, o índice de ocupação dos hotéis no México vem caindo gradualmente desde o auge atingido no pós-pandemia.

A taxa superou os 80% nos resorts all inclusive de luxo, mas hoje está na faixa dos 60%.

Para Carolina Lacerda, diretora executiva e lider de hotelaria e turismo Latam da Ernst & Young, o recuo é natural após um pico que não era sustentável a longo prazo.

“A Europa reabriu e os outros países também voltaram com tudo no pós-Covid, o que dispersou o turismo que estava muito focado no México.”

Mas a diretora diz que também há um componente de segurança no esfriamento da demanda pelo Caribe mexicano, citando como exemplo a morte de um dos principais narcotraficantes do país, conhecido como El Mencho, em uma operação policial em fevereiro, que causou diversos problemas de segurança pública e mídia negativa para o México.

Outro desafio é o sargaço, um tipo de alga marinha que sempre foi comum na região, mas que tem se proliferado com mais intensidade nos últimos anos – uma possível consequência da elevação das águas dos mares e oceanos causada pelo aquecimento global.

O sargaço costuma ter um pico entre os meses de abril e agosto e atrapalha um dos principais atributos da região, que são as águas cristalinas, além de exalar um forte odor de ovo podre.

“No geral, as pessoas costumam ir a Cancún e à Riviera Maya pelas praias, então não poder usá-las afeta bastante a região,” disse Lacerda.

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