O Minha Casa Minha Vida está passando por uma mudança na distribuição das unidades contratadas por faixa de renda.
Um levantamento do Ministério das Cidades mostra que a Faixa 1 do programa – voltada a famílias com renda de até R$ 3,2 mil e imóveis de R$ 210 mil a R$ 275 mil – passou de 13% das unidades habitacionais contratadas em 2020 para 38,6% em 2025.
Em cinco anos, a Faixa 1 deixou de ser coadjuvante para se tornar o principal segmento do programa habitacional, enquanto a Faixa 2 perdeu espaço, reduzindo a sua proporção de 73,2% para 31,4% no mesmo intervalo.
Além do elevado déficit habitacional do País, que por si só sustenta a demanda pela categoria de entrada do programa, outro fator ajuda a explicar o avanço da Faixa 1: o nível ainda alto dos juros.
O patamar da Selic não afeta a demanda dos compradores que financiam a aquisição pelo programa, já que o crédito é subsidiado, mas impacta a captação por parte das incorporadoras para construir.
E embora a Caixa também subsidie o financiamento à construção de projetos do MCMV, não há recursos para todos os empreendimentos – então é comum que as empresas recorram a uma linha de recursos livres.
Com isso, as incorporadoras aumentaram a exposição à base do programa, onde a necessidade de capital próprio é menor, tornando a conta da Faixa 1 mais atrativa.
“A Faixa 1 é muito boa para as empresas quando bem feita: primeiro, paga-se um quarto do imposto; e segundo, o juro para comprar é muito reduzido,” Ely Wertheim, o presidente executivo do Secovi-SP, disse ao Metro Quadrado.
“Ninguém está preterindo a Faixa 2 em relação à Faixa 1. É uma questão de demanda. O mercado produz o que vende.”
Enquanto as faixas superiores têm crescido em capitais que aprovaram planos diretores pensados para incentivar o programa em áreas mais centrais, a Faixa 1 avança principalmente em cidades do interior.
Com 50% de sua produção voltada à Faixa 1, a construtora Pacaembu tem aproveitado que o custo do terreno no interior é mais baixo do que nas capitais para fazer produtos maiores e mais competitivos.

A empresa – que atua principalmente no estado de São Paulo – entrou recentemente no Paraná e no Mato Grosso, onde viu a demanda ser impulsionada pelo agronegócio, levando mais gente para o interior.
“São municípios crescendo em torno de 6% e 7% ao ano, mas que estavam desprovidos de oferta de habitação,” Victor Almeida, o chairman da companhia, disse ao Metro Quadrado.
Já na Faixa 2 – destinada a famílias com renda entre R$ 3,2 mil e R$ 5 mil e imóveis de até R$ 275 mil – as contratações caíram de 267 mil unidades contratadas em 2020 para 174 mil em 2025.
Na avaliação do CEO da Pacaembu, a categoria acabou se transformando em uma “faixa de transição” entre os públicos das Faixas 1 e 3, assumindo o papel que já havia sido da extinta “Faixa 1,5”.
Ainda que tenha mudado o segmento que capitaneia o programa, o MCMV como um todo cresceu 69,4% em cinco anos, passando de 365 mil para 619 mil unidades habitacionais contratadas no País.
O analista Bruno Mendonça, líder da área de real estate do Bradesco BBI, disse que o crescimento do programa e o aumento da participação da Faixa 1 só foram possíveis graças às atualizações nos limites de renda e nos preços dos imóveis nos últimos anos.
Esses ajustes nos tetos de renda levaram mais consumidores a se enquadrar na Faixa 1, mantendo os benefícios destinados a esse grupo na hora da compra, como juros menores e subsídios do governo.
“Não é que as empresas estão caminhando em direção à Faixa 1. É a Faixa 1 que está caminhando em direção às empresas,” disse.
A Faixa 3 também teve crescimento expressivo. O número de unidades contratadas passou de 49,2 mil em 2020 para 208 mil em 2024, antes de recuar para 155 mil em 2025.
Parte da queda está relacionada à criação da Faixa 4 pelo governo federal, ampliando o acesso do programa à classe média, que até então ficava fora do MCMV.
Em 2025, 5% das unidades contratadas estavam na nova faixa, destinada a famílias com renda de até R$ 13 mil mensais e imóveis de até R$ 600 mil.




