Na construção civil, a incerteza sobre como será o quarto mandato do presidente Lula está pesando mais para o setor do que a própria Selic elevada.
Essa é a visão da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), que já defendia a importância do equilíbrio fiscal e da eficiência do Estado em agendas entregues às duas campanhas antes do resultado do pleito.
“É importante ter uma política fiscal responsável de longo prazo para que a taxa de juros se comporte de uma maneira mais previsível,” Eduardo Aroeira Almeida, o presidente da CBIC, disse em coletiva.
“A imprevisibilidade é muito mais danosa ao empresário.”
As dúvidas crescem em meio à expectativa de empresários e gestores da Faria Lima sobre quem será o próximo ministro da Fazenda e quais serão as medidas adotadas para recuperar a credibilidade fiscal do País.
E esse desconforto têm pressionado os juros de contratos mais longos, que acabam tendo mais peso do que a Selic no crédito imobiliário, em que os financiamentos ao comprador podem chegar a 35 anos.
Tanto que os dois maiores bancos privados do País, o Bradesco e o Itaú, anunciaram nesta semana um reajuste nas taxas de juros para imóveis.
O Itaú, por exemplo, subiu a taxa mínima de 11,99% para 12,95% ao ano e disse que o ajuste reflete as condições atuais de captação de recursos no mercado.
Se o presidente Lula tomar medidas que sinalizem um ajuste, os juros futuros podem inverter a tendência e criar espaço para o BC seguir cortando a Selic, levando a um alívio no mercado de médio e alto padrão.
“Por isso, aguardamos alguma ação do governo,” disse o presidente da CBIC.
Quatro em cada 10 empresários da indústria apontaram os juros elevados como o principal problema enfrentado pelo setor no terceiro trimestre, segundo uma sondagem feita pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com a CBIC.
A proporção subiu em relação ao tri anterior e está no segundo maior nível da série histórica.
Outra grande preocupação do setor é a reforma tributária, que entra em vigor no próximo ano, mas ainda gera uma série de dúvidas entre os empresários.
Para a CBIC, ainda estão pendentes diversas ações do governo para estabelecer parâmetros e esclarecer as mudanças que devem ser implantadas nos sistemas das empresas.
Um exemplo é a emissão de nota fiscal na venda de apartamentos, algo que nunca foi prática do setor pois o contrato de promessa de compra e venda já cumpria essa função, mas que agora será obrigatória.
“Em um empreendimento do MCMV de mil unidades, por exemplo, não é possível emitir manualmente mil NFs e informar isso para a Receita. Precisamos da informatização da informação,” disse Almeida.
Considerando esse cenário, a CBIC pediu ao governo o adiamento da implementação da reforma. “Nossa preocupação é grande, muito por conta da necessidade de definições que ainda estão em falta e que não dependem das nossas empresas.”




