Poucos arquitetos brasileiros venceram tantos concursos de arquitetura quanto a dupla Artur Katchborian e Mario Biselli.
A lista é tão longa que eles chegaram a vencer duas vezes a disputa por um mesmo projeto, o do Aeroporto de Florianópolis, em que o primeiro, de 2004, não saiu do papel devido a mudanças na administração do local, levando a uma segunda concorrência anos depois.

A obra foi concluída em 2019 e recebeu prêmios como o da Bienal Pan-Americana de Arquitetura de Quito e o Prêmio Oscar Niemeyer para a Arquitetura Latino-Americana (Prêmio ON – UIA 2020-Rio).
Sócios há 40 anos no escritório Biselli Katchborian, eles já perderam a conta de quantos concursos venceram e nem sabem estimar de quantos participaram.
Mas a fama é tanta que Artur já foi convidado para dar uma palestra a arquitetos sobre “como ganhar concursos”, na qual ele passou mais de uma hora exibindo projetos que desenvolveram e não ganharam.
“O segredo para ganhar é participar sempre,” Artur disse ao Metro Quadrado.
A história da dupla começou no início dos anos 1980: eles se conheceram em um quartel, quando Mario foi convocado para prestar o serviço militar no mesmo local onde Artur já servia o Exército. A amizade, porém, só se formou de fato mais tarde, quando se reencontraram no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Dessa convivência em sala de aula nasceu uma das parcerias mais longevas da arquitetura brasileira. Nos primeiros dez anos de atuação, eles aceitaram todo tipo de trabalho que surgia: escolas, casas, uma estação de trem e até uma igreja.
Hoje, eles se definem como grandes “generalistas” e desenvolvem projetos dos mais variados tipos, de casas luxuosas a equipamentos de interesse público, como conjuntos habitacionais de interesse social, centros culturais, espaços comunitários, escolas e aeroportos.

“Quando você faz sempre a mesma coisa, a arquitetura vira commodity,” Mario disse ao Metro Quadrado.
Vários desses projetos estão agora reunidos na exposição retrospectiva “Biselli Katchborian – 40 anos de trajetória”, que ocupa a Biblioteca do Centro Universitário Senac, em Santo Amaro e foi concebida junto com o Escritório Modelo do ArqLab Senac.
A escolha pelo ambiente universitário não foi à toa: Mario e Artur também atuam como docentes — Artur no próprio Senac e Mario no Mackenzie.
Para a dupla, a intenção é não só celebrar a trajetória do escritório, mas apontar percursos, destrinchar processos, discutir maneiras de projetar e inspirar jovens arquitetos.
A diversidade de escalas e programas que marca a trajetória da dupla também se manifesta nos projetos de habitação social, presentes na exposição.
Em São Paulo, a dupla foi responsável por dois empreendimentos de habitação social no âmbito de PPPs (Parcerias Público-Privadas): o Complexo Júlio Prestes, na região da rua Santa Ifigênia, e a Usina do Asfalto, na Barra Funda.
Outro trabalho importante nessa mesma linha é o Conjunto Habitacional Heliópolis, concluído em 2023 e concebido com a participação direta dos moradores, em um processo que envolveu assistentes sociais atuantes na região.

O projeto recebeu o prêmio do IAB na categoria Edificações e Habitações de Interesse Social e foi elogiado por críticos por fugir da lógica dos blocos habitacionais padronizados e se conectar à malha urbana do entorno, respeitando a escala do pedestre e os fluxos da própria comunidade.
O compromisso com a qualidade dos espaços públicos também guia o trabalho de Mario e Artur, principalmente em São Paulo, onde vivem. Para eles, faltam praças, parques e outras áreas de convívio na capital.
Essa preocupação se reflete, por exemplo, na reforma do Vale do Anhangabaú, da qual participaram em parceria com o escritório PJJ Malucelli Arquitetura.
Embora não seja uma obra autoral da dupla, a intervenção deu continuidade a um trabalho desenvolvido em 2007 pelo escritório do arquiteto dinamarquês Jan Gehl, conhecido por defender o conceito de “cidades para pessoas”.
A exposição ainda conta com grandes projetos culturais e educacionais que estão no currículo do escritório, entre eles o Sesc Franca, o Sesc Guarulhos, o CEU Pimentas e a Faculdade Rudolf Steiner, além de residências projetadas por Mario e Artur, como a Casa BRM, em Curitiba, construída em concreto armado aparente.
A mostra fica em cartaz até 26 de novembro, e a entrada é gratuita.




