O prédio centenário que recorreu à Lei Rouanet para recuperar sua fachada

O prédio centenário que recorreu à Lei Rouanet para recuperar sua fachada
Rafael Balago |

Reformar a fachada de um prédio centenário custa milhões de reais. Para fechar a conta, um retrofit no centro paulistano decidiu recorrer à Lei Rouanet. 

A Citas comprou o edifício Cames, de 1924, na Rua José Bonifácio por cerca de R$ 4 milhões e está transformando-o em um prédio de apartamentos de aluguel para famílias de classe média baixa, no modelo multifamily. 

A reforma interna, já em andamento, deve custar em torno de R$ 8 milhões. Para a fachada, que é tombada, seriam necessários mais R$ 5 milhões, que poderão ser obtidos via Lei Rouanet. 

A Rouanet permite que empresas e pessoas físicas direcionem até 6% do seu Imposto de Renda a projetos culturais aprovados pelo Ministério da Cultura. 

O JB 110 teve a captação autorizada, mas a chegada dos recursos agora depende do interesse de pessoas e empresas em colaborar. 

“Se eu fosse colocar esses milhões de reais a mais na conta, não ia conseguir cobrar R$ 2 mil de aluguel,” Isadora Rebouças, a CEO da Citas, disse ao Metro Quadrado. 

A fachada do Cames, agora rebatizado de JB 110, tem estilo eclético, com janelas amplas. Fora os detalhes nas paredes, é preciso rever os vidros, engates e outras peças.

“Se a gente conseguir captar via Rouanet, vai ser incrível. O restauro é um presente para a cidade. Mas se não captar nada, a fachada fica como está,” afirma Isadora.

A estratégia de usar a Rouanet para reformar fachadas já teve tentativas anteriores em São Paulo, sem sucesso. 

Edifícios residenciais famosos, como o Copan e o Viadutos, cogitaram a opção, mas não avançaram e acabaram usando outros recursos. 

O Copan, por exemplo, obteve em 2023 uma exceção à Lei Cidade Limpa para exibir publicidade na fachada. No entanto, só neste mês, três anos depois, foi feito um acordo com a Eletromídia para que a fachada possa receber projeções, em um pacote que inclui a instalação de telas em áreas comuns do prédio. 

Para aumentar a chance de sucesso, o JB 110 propõe fazer exposições de arte na própria fachada, após a reforma.

Também serão oferecidas visitas guiadas. O interior do prédio tem uma escada tombada, com piso e corrimãos antigos, que estão preservados. 

Do lado de dentro, estão sendo construídas até cinco moradias por andar, entre estúdios e apartamentos de um a três dormitórios. No térreo, há duas lojas que serão alugadas.

Antes, o edifício era usado para escritórios, de modo que os andares tinham plantas livres. Agora, estão sendo erguidas paredes de tijolos para criar os ambientes residenciais. 

“No fundo, vamos abrir mais algumas janelas, pois o tombamento só envolve a fachada e partes da escada,” Celina Vaz, sócia da Citas, disse ao Metro Quadrado. 

Neste projeto, os caixas foram separados, e o dinheiro da Rouanet, se for captado, irá apenas para a fachada.   

A parte interna foi custeada pela linha de investimento de impacto Kasa Delas, criada pela Citas em parceria com a Ibirá Negócios Sociais. O JB 110 é o primeiro prédio custeado por essa iniciativa.

Além disso, o projeto receberá R$ 3 milhões em incentivos financeiros da Prefeitura de São Paulo. E a Citas poderá vender o potencial construtivo do prédio a outros empreendimentos.

“Investimento de impacto não é filantropia: é capital estruturado com retorno esperado e metas sociais mensuráveis desde o início,” disse Isadora.

Neste prédio, pelo menos metade das unidades será destinada a mulheres chefes de família com renda de até seis salários mínimos.

As sócias ressaltam que morar em uma área central ajuda as pessoas a terem acesso a mais oportunidades, tanto de trabalho quanto de estudo, serviços e lazer.

O JB 110 fica perto da Casa de Francisca, que virou um polo cultural do centro paulistano, e de outros prédios que passam por retrofit para receber moradias.

A Citas já entregou outros seis projetos de habitação na região e tem cerca de 300 prédios mapeados, à espera de investimentos.

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