A nova casa do Bolão, o dono do macarrão mais famoso de BH

BELO HORIZONTE — O macarrão mais famoso da cidade, que alimentou as composições do Clube da Esquina e do Skank, está de casa nova no bairro de Santa Tereza.
Seis meses depois de ser despejado do casarão que ocupava há 55 anos, na Praça Duque de Caxias, o Bolão atravessou a rua e voltou ao imóvel onde foi fundado em 1961.
“O Bolão não fecha, ele renasce,” diz o bordão da família Rocha, a dona da marca, que voltou a se cumprir no mês passado, com a reinauguração do bar.
O novo espaço – administrado por Karla Rocha, seu irmão Carlos e sua mãe, Márcia – tem 285 metros quadrados e capacidade para 120 pessoas.
Luiz Cláudio, o primo de Karla que tocava o estabelecimento anterior com ela, saiu da sociedade.
O primeiro bar da família Rocha foi fundado em 1961 por José da Rocha e Maria dos Passos, um casal natural de Ponte Nova, no interior de Minas Gerais, e que se mudou para Belo Horizonte com os nove filhos.
Fincado no coração de Santa Tereza, o Bar Rocha & Filhos cresceu junto com o bairro, que surgiu como uma colônia agrícola da capital mineira e também recebeu um centro de acolhimento a imigrantes antes de passar por um processo de urbanização nos anos 1920.
Uma das grandes lendas urbanas de BH diz que, ao flanar pelas ruas da cidade, o poeta Carlos Drummond de Andrade caminhava sobre os famosos arcos do Viaduto Santa Tereza, que liga o centro ao bairro.
Talvez por isso a região tenha se tornado um dos principais pontos de encontro da boemia belo-horizontina a partir dos anos 60, com bares e casas de seresta sempre abarrotados de artistas.
O bar dos Rocha começou a fazer sucesso já nessa altura, e se tornou parada obrigatória após o caçula da família – José Maria, o “Bolão” – assumir as panelas.

Cozinheiro de mão cheia, Bolão criou os pratos que deram fama ao negócio: o Rochedão (prato feito com arroz, feijão, fritas, bife e ovo) e, principalmente, o macarrão à bolonhesa.
O sucesso foi tamanho que a casa chegou a vender 300 pratos da famosa massa por noite – e o apelido do chef virou o nome do bar.
Além de “rei do espaguete”, o bar também se consagrou como o “rei da madrugada” para músicos, jornalistas, taxistas e todos aqueles que procuravam um lugar para comer e beber no fim da noite.
Bandas como Clube da Esquina, Skank, Sepultura e Pato Fu foram frequentadoras assíduas da casa, assim como todos os notívagos de respeito da cidade.
Na última década, a maior parte dos herdeiros diretos foram se aposentando e o Bolão passou a ser comandado por uma filha e cinco netos dos fundadores, mas acabou se tornando mais um estabelecimento histórico com dificuldades para se manter aberto em BH.
Em junho, o octogenário Café Nice também precisou ser socorrido. Os proprietários foram convencidos a fazer uma campanha e conseguiram aporte da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL BH) e do Banco Mercantil. Após uma revitalização, o local foi reaberto em setembro.
Já em agosto, o Bar do Salomão, na Serra, anunciou a venda do imóvel em que funcionava após 72 anos. O local foi adquirido por uma rede de farmácias e o proprietário estuda abrir o estabelecimento em outro local.
O Bolão, por sua vez, recebeu uma ordem judicial de despejo em setembro sob o pretexto de que o casarão que o abriga precisava passar por obras.
Construído em 1927, o imóvel foi tombado como patrimônio municipal em 2011 e integra um conjunto de 1,2 mil m².
A construção principal tem dois andares e é dividida em várias lojas, sendo que nos últimos anos o bar ocupava apenas a fachada voltada para a Praça Duque de Caxias.
O valor do aluguel do imóvel chegou a R$ 30 mil, mas foi renegociado para R$ 20 mil por dificuldades financeiras da família.
Um corretor de imóveis que trabalha no bairro disse ao Metro Quadrado que, atualmente, o casarão está avaliado em cerca de R$ 6 milhões. Há uma casa de 500 m² à venda no mesmo quarteirão por R$ 2 milhões.
“O imóvel precisava passar por uma reforma. Se o bar continuasse, teria que fechar as portas por dois ou três meses, mas sem fechar a empresa, o que é bem complicado. Imóvel tombado, muitos detalhes, liberação da Prefeitura, tudo isso demora,” disse Luiz Cláudio Rocha, ex-sócio de Karla e neto dos fundadores do Bolão.
Ele afirma que em breve estará à frente de outro projeto e que há a possibilidade de retornar ao antigo casarão.
Como a loja era um ícone da cidade, houve uma mobilização para tentar mantê-la como uma unidade do Bolão – mas ainda não se sabe qual será o seu destino.
O que se sabe é que BH não poderia ficar sem seu melhor macarrão e, felizmente, o Bolão encontrou uma nova casa.







