A arquiteta dos hotéis internacionais que estão chegando

As grandes bandeiras hoteleiras internacionais que desembarcaram no Brasil nos últimos anos têm algo em comum: todas disputam o trabalho da arquiteta Patricia Anastassiadis.
Com o Sofitel Barra previsto para inaugurar ainda em 2026 e o Four Seasons em 2029, Patricia é hoje o nome por trás dos principais projetos de interiores de hotéis de luxo no Rio – incluindo o Fairmont Copacabana e o Hilton Barra.
“Eu posso passar o resto da minha vida projetando hotéis no Rio que não vou me repetir,” Patricia disse ao Metro Quadrado. “Existem muitas narrativas na cidade. Cada projeto parte de uma perspectiva diferente.”

Ao longo de uma carreira de mais de 30 anos, Patricia construiu um portfólio invejável em interiores de alto padrão, pautado por uma abordagem “tailor-made”.
Ela coleciona obras por todo o Brasil, como o retrofit dos interiores do Kempinski Laje de Pedra, de Canela, e o do Hotel Nacional de Brasília, original de Oscar Niemeyer.
Há ainda muitos projetos no exterior. A arquiteta já reformou hotéis no sul da França, na Grécia e no Caribe. “Me interessa cada vez mais projetar em locais com história. É quase um trabalho de arqueologia: pesquisar, ressignificar e devolver vida a esses espaços. É sempre desafiador, mas muito gratificante.”
A atenção aos detalhes, uma marca de seu estilo, vem de berço. Filha de donos de uma confecção no Bom Retiro, ela cresceu próxima do universo da moda e chegou a cogitar a carreira de estilista.
Sem muitas opções de formação no Brasil na época, optou pela arquitetura — seguindo o conselho dos pais, que viam no curso uma base sólida para qualquer atividade criativa.
Acabou se apaixonando pela profissão durante a graduação. Poucos dias após a formatura e sem nenhuma experiência profissional, assumiu seu primeiro projeto: o restaurante Filomena, sucesso na década de 1990 em São Paulo e responsável por revelar o chef Alex Atala.
Patricia foi uma aposta de Roberta Matarazzo Suplicy, que a levou para apresentar a proposta aos pais, Roberto e Vera. Apesar da hesitação inicial, eles confiaram na jovem arquiteta e em suas ideias.
Depois do Filomena, vieram outros restaurantes, bancos, residências e empreendimentos imobiliários.
O primeiro projeto de hotelaria foi a reforma do Club Med Trancoso no início dos anos 2000, quando já buscou incorporar peças criadas à mão por artesãos locais — prática que se tornou recorrente em suas obras.
Patricia diz que costuma estabelecer um diálogo entre o seu trabalho, a localidade e a bandeira hoteleira. Segundo ela, embora cada rede tenha sua essência, hoje os grandes grupos entendem que não faz sentido impor uma estética deslocada do contexto.
“Estar em Barcelona e se hospedar em um hotel que é um reflexo do Oriente distancia as pessoas da experiência de viagem,” disse.
Essa visão foi fundamental para sua atuação com bandeiras como Four Seasons, Fairmont, Hilton, Hyatt, Ritz-Carlton, Marriott e Oetker Hotels.
No Sofitel Ipanema, por exemplo, do grupo francês Accor, ela buscou construir uma narrativa que aproximasse o Rio de Janeiro da Riviera Francesa, fugindo de um imaginário clássico parisiense.
No processo, explorou a relação entre a França e o Brasil, incluindo influências e intersecções artísticas e culturais. “O bonito é escrever uma história por meio do projeto,” disse.
Ela adotou essa abordagem nos três trabalhos com a Oetker Hotels: o Palácio Tangará, em São Paulo; o Jumby Bay Island, em Antigua; e a renovação do pavilhão de restaurantes do Hotel du Cap-Eden-Roc, em Cap d’Antibes, no sul da França.
Neste último, venceu uma concorrência internacional acirrada com um projeto centrado na preservação da memória do edifício, que celebrava 150 anos em 2020. Para o diretor-geral Philippe Perd, Anastassiadis propôs “uma interpretação contemporânea, alinhada ao luxo atemporal do hotel.”
Hoje, Patricia conta com o auxílio dos dois sócios na gestão do escritório: a arquiteta Priscila Raffaini Payá, seu braço direito na arquitetura de interiores, e Arthur Jorge Lé, à frente da área administrativa.
Ela acredita que o crescimento de Anastassiadis Arquitetos não veio de estratégias de negócios pré-estabelecidas, mas de um compromisso com a metodologia.
“A nossa maneira de trabalhar nos dá bagagem para sentar em qualquer mesa e falar sobre qualquer assunto,” afirmou. “O pensamento por trás dos projetos é sempre único. É sobre o ser humano: como ele vai se relacionar com a cidade, com um edifício, com um apartamento e com uma casa.”
A criação de móveis feitos sob medida para os clientes também faz parte do processo e é vista por ela como desdobramento natural do seu trabalho.
Há dez anos, ela mergulhou definitivamente no design de produto e assumiu a direção criativa da Artefacto a convite de Paulo Bacchi, CEO da marca.
“A Patricia teve um papel importante na ampliação do nosso repertório. Ela contribuiu para organizar uma linguagem mais clara, mais consistente, trazendo uma leitura contemporânea sem romper com a essência da Artefacto,” Bacchi disse ao Metro Quadrado.
A parceria vem rendendo frutos. Muitas peças receberam importantes prêmios internacionais do setor como iF Design, Red Dot Award, Kyoto Global Design Awards e Prize Designs for Modern Furniture + Lighting.
Essa aposta no design autoral, segundo Bacchi, sustenta a expansão internacional da Artefacto, que inaugurou, em 2024, uma loja na Madison Avenue, em Manhattan, projetada por Anastassiadis.
“Ter uma direção criativa estruturada reforça essa coerência e nos permite dialogar com diferentes mercados,” comentou o CEO.
Em março, Patricia e a Artefacto lançaram a coleção Cosmos, que reforça a atemporalidade do seu desenho de mobiliário.
“O processo do design de produto tem um tempo diferente. É um trabalho em outra escala. Eu adoro visitar a fábrica, interagir e olhar cada detalhe das peças. É tudo muito rico,” disse a arquiteta.







