Construtoras querem aço mais resistente, diz CEO da ArcelorMittal

Construtoras querem aço mais resistente, diz CEO da ArcelorMittal
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O esforço das construtoras para industrializar suas obras tem gerado uma nova demanda para as fabricantes de aço.

Everton Negresiolo, o CEO da operação de aços longos da ArcelorMittal na América Latina, disse ao Metro Quadrado que as empresas estão pedindo aços mais resistentes, que ajudam a “desmaterializar” a obra. “A construtora passa a precisar de menos aço para entregar a mesma performance estrutural.”

Embora essa procura esteja gerando uma produção adicional, a companhia – responsável por 42% do aço produzido no Brasil – tem notado que a construção está “andando de lado”, em razão do ritmo mais lento de lançamentos residenciais e de projetos de infraestrutura.

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O maior desafio, no entanto, continua sendo a concorrência com o aço chinês, que chega a preços mais baixos e pressiona as margens de quem produz no Brasil.

“O momento está bastante complexo para decisões de novos investimentos de expansão,” disse o CEO.

Confira os principais trechos da entrevista:

O crescimento da construção está em acomodação no Brasil. Como isso afeta a produção de aço?

Os projetos estão andando um pouco mais de lado. Nas obras de infraestrutura, há uma estabilidade. Achávamos que o novo marco do saneamento geraria um crescimento mais robusto. Um dos fatores é a taxa de juros, que impacta muito a viabilidade de grandes projetos. É um segmento que já foi o mais importante naquele ciclo de obras para a Copa do Mundo. Mas o Brasil ainda é muito carente de infraestrutura, há a expectativa de que o crescimento volte.

O fato de estarmos em ano eleitoral não ajuda a acelerar esses projetos nos estados?

Antigamente, até pelo maior espaço no orçamento público, havia mais obras de infraestrutura maiores finalizadas no ano eleitoral. Hoje vemos obras de menor magnitude, e vemos também que o ano eleitoral está gerando mais consumo das famílias do que investimento em infraestrutura.

E quanto à demanda por galpões logísticos e das indústrias?

Esse segmento está um pouco mais vigoroso, não só pela demanda dos galpões logísticos, mas também de indústrias que estão fazendo investimentos em novas plantas. E há também o segmento de transmissão de energia, dos vários leilões feitos nos últimos anos, e que nós consideramos como industrial, e não como infraestrutura, porque é basicamente o setor privado quem faz o investimento. Já o setor de energia renovável, que foi bastante rigoroso nos últimos anos, está agora em compasso de espera, em razão da questão do curtailment.

O aumento do nível de estoque de prédios residenciais de médio e alto padrão em São Paulo já está se refletindo em menos projetos?

Em São Paulo já há uma diminuição do volume de lançamentos, mas o Brasil é muito grande. No Nordeste, por exemplo, em cidades como João Pessoa, Recife e Fortaleza, já há um volume maior. O Centro-Oeste, muito puxado pelo agro, também está mantendo um volume um pouco maior. E no Sul, em Balneário Camboriú, que também tem vínculo com o agro, está muito pujante. 

O Minha Casa Minha Vida também está ajudando a compensar?

O Minha Casa Minha Vida está bastante vigoroso e tem ganhado representatividade em todas as regiões. Há uma relevância maior no nosso negócio, mas não se tornou o principal, porque, pelo padrão construtivo, nós fornecemos uma bitola média de aço, então há um consumo menor de aço por apartamento no Minha Casa Minha Vida do que em projetos de médio e alto padrão. 

O segmento de data center, que ainda está engatinhando, é um mercado que a empresa vê com muito potencial?

Sim, até porque o data center leva um consumo de aço relevante, porque há toda uma estrutura de ventilação, refrigeração e equipamentos, enfim, então há uma relevância importante do aço. E o Brasil tem condições para ter um incremento de data centers, por ter um custo de energia competitivo e acesso à água, já que a refrigeração do ambiente é extremamente relevante.

Mas as demandas para data centers que chegam ainda são pontuais ou está chovendo projeto?

Eu não diria que está chovendo, porque é uma coisa nova. Se comparar com cinco anos atrás, era muito pouco. Fora do País nós temos centros de pesquisa, em mercados mais maduros, com soluções específicas pra data centers, e que estamos trazendo no Brasil também, porque são projetos que têm complexidade, e são projetos em que a velocidade de construção é extremamente relevante. Aliás, a velocidade passou a ser relevante para todas as construções.

Você se refere a uma maior demanda por construções industrializadas?

Sim. Essa é uma discussão que está na nossa agenda, inclusive porque fazemos parte de um grupo global, e temos outro nível de maturidade nesse debate em outras regiões. Nos Estados Unidos e no Canadá, os períodos de neve limitam a construção. É uma preocupação climática que ainda não temos no Brasil. Mas aqui temos a questão da mão de obra e do ciclo financeiro.

Essa maior demanda por industrialização está mudando a produção de aço?

As construtoras estão demandando um aço mais resistente. O vergalhão CA70, que nós produzimos, é um vergalhão de alta resistência, com mais de 40% de capacidade de resistência acima do vergalhão tradicional, que é o CA50. Isso gera uma desmaterialização da obra. A construtora passa a precisar de menos aço para entregar a mesma performance estrutural. Para o Senna Tower, projeto no qual estamos envolvidos, e que terá mais 100 pisos, esse produto será importante para toda a parte de fundação. Nós estamos inclusive investindo em startups que desenvolvem soluções para a industrialização da obra. É um caminho sem volta.

Apesar de todos esses esforços, a China continua sendo um grande desafio em termos de competição?

É nosso principal desafio. O que a China produz em uma semana o Brasil produz em um ano. E como o consumo doméstico da China cresce menos, eles estão exportando a capacidade excedente. Eu não quero entrar em protecionismo, mas há na China uma estrutura de custo, operacional e financeiro, muito diferente do que se vê em economias abertas. Há uma enxurrada de material chinês a preços abaixo do custo de produção de outros países. Com a volta do Donald Trump, os países estão decidindo se vão ou não defender suas indústrias. Nos países que defendem menos, a China entra mais, e o Brasil é um dos países com menor nível de defesa comercial. 

Ainda é possível crescer a produção no Brasil diante dessa competição chinesa?

Os últimos cinco anos foram os anos do maior ciclo de investimento da ArcelorMittal. Foram R$ 25 bilhões no total, com aportes em energia renovável, a aquisição da Companhia Siderúrgica do Pecém, uma nova planta de mineração em Minas Gerais e um aumento no Rio de Janeiro. Por outro lado, tivemos o cancelamento em 2024 da duplicação da nossa unidade de João Monlevarde em Minas Gerais, em razão desse aumento da importação e do não crescimento da economia.

Então não é o momento para novas expansões?

O momento está bastante complexo para decisões de novos investimentos de expansão.

A empresa está operando com que capacidade no Brasil?

A siderurgia no Brasil opera por volta de 60% da capacidade instalada, e nós estamos operando acima disso, porque nós temos operações que são voltadas para exportações, como a do Pecém e a de Tubarão, que tem um percentual importante de exportação. E por termos uma atuação diversificada, que passa por fornecer para construção civil, indústria, portos, infraestrutura, energia, conseguimos também ter um nível de utilização maior da capacidade.

Qual o efeito do tarifaço de Trump na operação de Pecém, que exporta para os Estados Unidos?

Pecém é o nosso principal impacto, mas nós estamos conseguindo sustentar o nível de utilização de operação. Para os EUA estamos exportando menos, mas conseguimos derivar o restante para outros países, na América Latina e na Europa. Mas a rentabilidade está menor, porque a exportação para os EUA era algo do grupo, porque temos lá uma laminadora que se abastece do que sai do Brasil. A exportação que foi mantida para os EUA tem nível de imposto superior, mas isso foi dividido na cadeia.

Esse nível de utilização de 60% no setor é preocupante?

Esse nível é um risco muito grande para o setor, que é um setor de ciclos longos. É preciso operar os ativos no máximo da taxa de utilização para a saúde dos ativos e para a saúde financeira do negócio. Não tem país desenvolvido no mundo que não tenha uma indústria siderúrgica muito forte, porque o aço está em todas as indústrias. E um país sem indústria é um país com empregos de menor qualidade, com uma arrecadação tributária menor. Não se trata de defesa comercial, mas de defesa do desenvolvimento do país.

Isso é reflexo de um estado hoje tem menos orçamento disponível para impulsionar a indústria?

Eu não defendo que o Estado volte a ser o grande indutor do investimento. O setor privado no Brasil e o setor financeiro já têm robustez e capacidade para isso. Mas com uma taxa de juros de 15% ao ano, é muito difícil para o setor privado fazer esse investimento.

O lucro da ArcelorMittal no Brasil tem diminuído nos últimos anos. A que se deve isso?

O principal fator está relacionado à invasão do aço importado, subsidiado, a preços abaixo do custo de produção, com um consumo que não cresce, gera sobrecapacidade, que gera compressão de margem, para defender o market share. E isso tem acontecido no setor como um todo no Brasil. É notória a redução do nível de geração de lucratividade. E há também uma pressão inflacionária, porque o custo fixo de uma indústria siderúrgica é muito relevante, e de matérias-primas. Estamos investindo em tecnologia para trazer mais eficiência, mas o grande detrator é esse cenário de invasão do aço somado ao baixo crescimento do consumo.

A isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil pode gerar uma demanda adicional por reformas?

É algo positivo, mas não é algo que vai transformar o setor.

O conflito no Irã já está sendo sentido na siderurgia nacional?

Nós não temos um impacto direto muito relevante ainda, mas nós já estamos sofrendo alguns impactos indiretos, como o nosso custo de frete, pelo impacto nos combustíveis, e o frete internacional, em razão das matérias primas que são compradas fora do Brasil, pelo custo delas e pela disponibilidade de navios; e as nossas exportações já começam também a ter desafios do custo do frete da exportação. Mas a depender do prazo e da intensidade dessa situação, podemos começar a ver outros impactos. O aço é elástico ao PIB.

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