O designer que viralizou com cidades refeitas por AI

Vídeos de inteligência artificial que imaginam ruas, canais e estádios levaram milhões de visualizações para o perfil do designer Cauan Wenderico — e abriram também a porta do gabinete de uma vereadora em São Paulo.
Depois de ver seus conteúdos circularem nas redes, a vereadora Renata Falzoni (PSB), ligada à pauta de mobilidade e urbanismo, reagiu a um vídeo em que Cauan reimagina a Av. 9 de Julho e a Av. Sumaré, com a renaturalização de rios urbanos que foram aterrados com o avanço da infraestrutura na cidade.
A interação gerou uma collab entre os dois, que impulsionou ainda mais o perfil do designer.
“A minha intenção sempre é trazer para o imaginário das pessoas a possibilidade. Quero abrir debates,” Cauan disse ao Metro Quadrado.
Aos 24 anos, o designer vive em Curitiba e trabalha como diretor de arte no Governo do Paraná.
Antes de começar a fazer os vídeos, o contato mais próximo que Cauan teve com o urbanismo foi quando cursou engenharia florestal por dois anos no Mato Grosso – mas deixou a graduação quando percebeu que não se identificava com a parte técnica.
Na infância, porém, gostava de desenhar ruas, organizar quarteirões no papel e imaginar como os espaços poderiam funcionar melhor.
Foi como estagiário da Fundação Cultural de Curitiba que ele testou pela primeira vez o tipo de vídeo que depois viraria o centro do seu perfil.
Em dezembro de 2025, com a divulgação de uma escola de circo que seria construída em Curitiba, ele decidiu transformar uma planta simples em um vídeo que mostrava a obra sendo erguida, etapa por etapa, usando AI.
O material foi publicado no perfil da Fundação e acabou se tornando o conteúdo mais engajado da conta, com 284 mil visualizações.
“Foi um tiro no escuro. Eu falei: ‘vamos tentar fazer e ver o que vai dar’. Quando o material ficou pronto, aí vi que ficou muito bom,” ele disse.
Até então, Cauan já produzia vídeos para redes sociais, mas em um formato mais voltado à rotina como designer.
“Mas ali eu sentia que estava fazendo algo que já existia. Eram vídeos que já tinham na internet, não tinha muito diferencial,” disse Cauan.
Ele decidiu, então, levar o urbanismo para o próprio perfil. O primeiro teste foi um vídeo sobre o Parolin, uma região mais vulnerável de Curitiba, em que ele imaginava uma requalificação do espaço.
O vídeo ganhou milhares de views em apenas algumas horas – hoje está em quase 4 milhões – e passou a circular fora da sua base de seguidores, com muitas pessoas marcando autoridades e cobrando mudanças reais.
O perfil do designer já passa dos 67 mil seguidores, e vários dos seus vídeos nascem de materiais produzidos por arquitetos e urbanistas.
Em outros casos, ele parte de anúncios recentes do poder público ou de temas que já estão em debate.
Um vídeo de cerca de 30 segundos leva entre três e quatro horas para ficar pronto, desde a geração das imagens até a edição final.
Os materiais que ele produz simulam movimento de câmera, avanço de obra e transformação do espaço a partir de imagens estáticas.
“É preciso ter conhecimento cinematográfico antes de engenharia de prompt,” disse ele.
Mesmo com a resistência das pessoas ao uso de AI, Cauan conta que nunca teve vergonha de dizer que usava a ferramenta para produzir seus trabalhos, porque a tecnologia também pode ser usada para produções positivas.
“Quero ser tradutor. Alguém que aproxima o debate de quem normalmente não acessa plantas, estudos ou relatórios,” disse Cauan.







