Crise no Paraguai ameaça boom de migração de brasileiros

Crise no Paraguai ameaça boom de migração de brasileiros
Rafael Balago |

Os brasileiros estão descobrindo que o Paraguai está longe de ser uma Suíça.

A crise financeira gerada pelo colapso do banco Ueno colocou em xeque o plano de muitos cidadãos de se mudarem para o país vizinho. 

O interesse em imigrar para o Paraguai vem crescendo nos últimos anos e se intensificou na semana passada, principalmente entre os insatisfeitos com o resultado da eleição presidencial e com os rumos da economia brasileira.

“Muitas vezes as pessoas pensam que o Paraguai é um paraíso de segurança jurídica, mas essa crise mostra o contrário. O sistema financeiro tem demonstrado inúmeras fragilidades,” disse ao Metro Quadrado Luciano Stremel, presidente do Idesf (Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras), baseado em Foz do Iguaçu, que estuda as relações entre as duas nações.

Na terça-feira, o banco Ueno, um dos maiores do Paraguai, foi fechado pelo banco central do país e deixou 3 milhões de pessoas com recursos congelados, incluindo brasileiros. A crise levou o presidente Santiago Peña a renunciar ontem para escapar de um impeachment. 

Muitos estrangeiros têm sido atraídos ao Paraguai por isenções fiscais e custos menores de mão de obra, que atraem especialmente as indústrias. 

Entre eles, estão 31,7 mil cidadãos brasileiros que pediram permissão de residência no país entre janeiro e setembro, um número recorde. Cerca de 90% tiveram o pedido aprovado, segundo dados do governo paraguaio, fornecidos ao jornal ABC Color. 

O Paraguai tem feito mutirões para receber pedidos de residência. Um deles é realizado nesta semana em Ciudad del Este e já estava previsto antes da eleição brasileira.

A Frontexa, consultoria especializada em auxiliar empresas a fazer negócios no país vizinho, recebeu 100 consultas de brasileiros entre janeiro e a véspera do segundo turno. Só na semana após a eleição, vieram outros 100 interessados.

“Veio gente de vários setores, não só da indústria,” Suelen Raizer, a diretora da Frontexa, disse ao Metro Quadrado.

Até agora, ela disse que não houve cancelamento de planos de investimento no país, embora todos estejam acompanhando o desenrolar da crise com atenção. 

“Um de nossos clientes foi a Assunção e disse que o clima lá está muito estranho, muito turbulento,” afirma. 

Suelen tem recomendado às empresas que façam uma due diligence mais cuidadosa, especialmente em relação aos bancos.

A Frontexa orienta seus clientes a abrir contas em entidades mais tradicionais, como o Continental ou o Itaú, que também atua no Paraguai.

O Ueno, pivô da crise atual, foi lançado em 2021, como um rebranding da Financiera El Comercio, criada em 1976, e apostava em atrair o público jovem, com mais serviços e funções digitais. A estratégia deu certo, e o banco conquistou 3 milhões de clientes, ou metade da população paraguaia. 

No entanto, tudo desmoronou nesta semana. O Ueno – cujo nome é um trocadilho com “bueno” – sofreu intervenção do Banco Central após denúncias de fraude e risco de insolvência. O acesso às contas foi suspenso e não se sabe se os correntistas conseguirão reaver todo o dinheiro depositado. 

A crise gera efeitos em outros bancos paraguaios, que estão com problemas para atender a um grande volume de pedidos de abertura de contas e de movimentações. 

A falta de liquidez no País afeta especialmente as pequenas empresas e os cidadãos, que subitamente ficaram sem acesso a recursos para pagar coisas do dia a dia.

“Há uma desidratação financeira do varejo, e pequenas empresas exportadoras brasileiras poderão ter problemas de caixa para pagar fornecedores,” diz Stremel, do Idesf.

Ele aponta que a carga tributária baixa do Paraguai reduz o poder do governo para atuar em situações de crise.

As isenções fiscais são o centro da estratégia paraguaia para atrair estrangeiros, em uma lista que inclui custos mais baixos de terrenos, de energia e de mão de obra, fora a agilidade para aprovar vistos. 

Lá, se cobra o chamado Triplo 10. A alíquota de imposto de renda, para pessoas físicas e jurídicas, bem como o IVA, são de 10% cada um. 

Além disso, há benefícios setoriais, como o programa Maquila, que dá isenção fiscal na importação de máquinas e de matéria-prima e cobra um imposto de 1% sobre os produtos exportados, o que atrai especialmente a indústria.

“Em equipamentos de alta tecnologia, você pode importar os componentes da Ásia sem pagar imposto, montar o produto no Paraguai e exportar,” disse Marco Riquelme, ministro de Indústria e Comércio do País, em um evento com empresários em São Paulo, em maio. 

O Paraguai também tem facilitado a busca de residência fiscal no País. Neste ano, foi lançado o Investor Pass, que dá direito ao documento de residente permanente mediante um investimento a partir de US$ 70 mil. 

Até agora, tudo indica que os benefícios a estrangeiros serão mantidos, mas há dúvidas sobre como o sistema financeiro do País lidará com a crise – e quanto tempo ela pode durar. 

O fundo garantidor do Paraguai cobre depósitos de até R$ 205 mil por pessoa. O ressarcimento dos valores acima disso ainda será definido. 

Na quarta-feira, o ainda presidente Santiago Peña sancionou uma lei para acelerar os ressarcimentos via fundo garantidor, que deverá liberar os recursos nos próximos dias. 

A velocidade da devolução do dinheiro será um fator-chave para encerrar a crise e ajudar os brasileiros interessados no Paraguai a decidirem seu futuro. 

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