Isay Weinfeld: meio século de uma arquitetura cinematográfica

Isay Weinfeld: meio século de uma arquitetura cinematográfica
Vanessa D'Amaro |

Para Isay Weinfeld, o cinema e a música precedem a arquitetura – uma hierarquia íntima que moldou a sua trajetória.

O gosto pelo audiovisual, inclusive, começou cedo. No início de sua carreira, nas décadas de 1970 e 1980, ele produziu alguns curta-metragens com um olhar atento para a arquitetura. Também chegou a dirigir um longa ao lado de Marcio Kogan, Fogo e Paixão (1988), estrelado por Fernanda Montenegro e Fernanda Torres. 

“A gente pode ser e fazer e experimentar de tudo na vida, sem se prender a uma profissão só,” Isay disse ao Metro Quadrado.

Todas essas facetas se encontram agora na mostra Etcétera, que celebra seus mais de 50 anos de carreira e estará em cartaz de amanhã até 17 de maio no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.

Desenvolvida ao longo de quase um ano, a exposição conta com 180 itens – entre maquetes, fotos, filmes, objetos, joias e móveis – ocupando duas salas amplas do instituto.

O próprio nome da mostra – Etcétera – dá pistas sobre a temática ampla. 

Na expografia, o curador Agnaldo Farias, arquiteto e professor universitário, dispensou a ordem cronológica previsível de uma retrospectiva e propôs um percurso que discute a filosofia de trabalho do arquiteto. 

“Como você mostra a diversidade de pensamento? Pela diversidade de projetos,” disse o curador. “Mais do que um arquiteto, ele é mais um diretor de cinema ou um diretor de orquestra. Ele tem uma visão global.”

Autor de inúmeras obras no Brasil, nos EUA e na Europa, Isay é reconhecido pelo rigor técnico, pela atenção ao detalhe e pela precisão nas proporções. 

Mas ele enxerga seu trabalho sob uma ótica mais abrangente. O que importa não é uma marca estilística, mas sim a busca constante pela originalidade. 

“Acho que a coerência está na minha vontade de nunca me repetir, de sempre buscar uma solução diferente, sob medida para cada obra,” disse Isay.

Aos 74 anos e com uma carreira sólida, ele tem o privilégio de escolher quais projetos assumir. Quando não enxerga possibilidade de criar algo realmente único, recusa a empreitada. 

É o novo que o mantém entusiasmado e na ativa. Ele até brinca durante a entrevista: “Meu trabalho ainda está engatinhando.” 

Na exposição, é a infância de Isay quem dá as boas-vindas.

Logo na entrada, o visitante se depara com um desenho feito por ele quando criança: uma casinha simples desenhada em um caderno quadriculado – o que rompe com a ideia de formalidade arquitetônica. 

Na sequência, as maquetes, produzidas em diferentes tamanhos e materiais, provocam um impacto visual. Algumas estão encaixadas nas paredes ou nas quinas; outras foram concebidas como blocos maciços. 

A proposta é que o visitante observe os projetos por ângulos variados para se surpreender com os detalhes. “Criamos coreografias distintas, oferecendo diferentes materiais e perspectivas,” diz Agnaldo.

Um dos destaques é um cubo branco de grandes dimensões que revela, em um de seus vértices, o interior de um apartamento projetado pelo escritório, como se o espaço tivesse sido esculpido dentro da matéria. 

Há um nicho horizontal em outra parede que exibe sete escadas icônicas desenhadas pelo arquiteto para lojas e residências, entre elas a escadaria em vidrotil vermelho da Fórum, na Oscar Freire; a estrutura circular em aço da loja Chocolate, na mesma rua; e a escada caracol flutuante, em madeira, da Casa Cubo. Ali, elas aparecem como verdadeiras peças escultóricas. 

Outras maquetes exibem projetos arquitetônicos de maior escala. O Hotel Fasano Fazenda Boa Vista aparece suspenso por cabos de aço sobre um espelho de contorno orgânico, em referência ao lago em frente ao hotel. Já o Instituto Ling, em Porto Alegre, é representado por um nicho azul profundo, pontuado por pequenos pontos de luz.

Também está exposta a série de fotografias feitas com celular Incredulidade (2024). Elas renderam o livro ISAY W e revelam o olhar único de Isay com relação à cidade – o que reverbera na sua arquitetura.

Já os 34 curtas da série IW Filmes (2013–2025), que retratam seus projetos arquitetônicos, podem ser assistidos na mostra. “Isay é metonímico. Ele trabalha os filmes com detalhes, com muita cadência e muito perfeccionismo,” diz Agnado.

A exposição tomou forma a partir de um processo coletivo que envolveu Isay, Agnaldo, a curadora-assistente Fernanda Fernandes e a equipe do escritório. O diretor criativo Giovanni Bianco também participou com a identidade gráfica e Bob Wolfenson com o catálogo de fotos. 

Esta dinâmica reflete um método descrito por Agnaldo como “muito horizontal”.

“Eu nunca vi um processo de trabalho como o deles. Tudo é muito pensado e discutido internamente,” ele disse. “Acho que a mostra prova que os arquitetos não fazem só arquitetura. Eles podem fazer muitas outras coisas.”

Foto no topo: Bob Wolfenson.

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