Uma pesquisa feita por profissionais que estudam escrituras mostra que um dos sobrenomes mais tradicionais da elite carioca está intimamente ligado a terrenos que marcaram a história do futebol brasileiro.
A família Guinle aparece nos registros dos terrenos que ajudaram a formar o Estádio das Laranjeiras, onde o Brasil conquistou seu primeiro título internacional, e volta a surgir décadas depois na área que daria origem à Granja Comary.
Os achados fazem parte do Projeto Memórias Notariais, da seção paulista do Colégio Notarial do Brasil, que vasculha registros e escrituras públicas para resgatar e preservar documentos históricos.
Em Laranjeiras, integrantes da família estão entre os antigos proprietários dos lotes que foram incorporados pelo Fluminense entre 1917 e 1920 para formar o complexo esportivo do clube, que recebeu os primeiros jogos da Seleção, criada em 1914.
Já em Teresópolis, herdeiros dos Guinle venderam à Confederação Brasileira de Desportos (antigo nome da CBF) uma área que mais tarde passaria a integrar o centro de treinamento da Seleção.
“A história das instituições no Brasil está entrelaçada com a história de grandes famílias,” Andrey Guimarães Duarte, o diretor da seção paulista do Colégio Notarial do Brasil, disse ao Metro Quadrado.
“O dinheiro acaba, tudo passa, ninguém lembra mais, mas esses imóveis acabam tendo uma finalidade social que faz com que a família perpetue a sua história.”
Com negócios em setores como portos, navegação, energia e hotelaria, os Guinle estavam entre as famílias mais ricas e influentes do Brasil no início do século XX.
A família esteve por trás de alguns dos empreendimentos mais emblemáticos do Rio de Janeiro, como o Copacabana Palace, inaugurado em 1923, além de negócios ligados ao Porto de Santos, origem de grande parte de sua fortuna.
A presença da família na vida econômica e social do Rio foi tão marcante que o sobrenome permanece até hoje em ruas, edifícios e outros marcos da cidade.
A relação com o futebol também era próxima. Arnaldo Guinle, um dos nomes que aparecem nos registros de Laranjeiras, presidiu o Fluminense entre 1916 e 1931, além de ter comandado a antiga CBD entre 1916 e 1920. Sua gestão ficou marcada pela expansão da infraestrutura esportiva do clube, incluindo o próprio Estádio das Laranjeiras.
A escritura mostra que o estádio foi montado a partir da incorporação de diferentes lotes, entre os quais terrenos pertencentes tanto a Arnaldo quanto à sua mãe, Guilhermina Guinle.
A incorporação só foi possível graças a um acordo entre o Fluminense e a Prefeitura, em que um cedeu um pedaço de terreno ao outro.
Na permuta, feita em 1954, a área de 5 mil m² cedida pela prefeitura ao Fluminense foi avaliada em 8,5 milhões de cruzeiros (R$ 9,75 milhões), enquanto o trecho transferido pelo clube à Prefeitura serviu para ampliar a Rua Pinheiro Machado e foi avaliado por $1,1 milhão de cruzeiros (R$ 1,27 milhão).
Segundo a escritura, a área cedida pelo Fluminense já era utilizada para receber jogos, incluindo arquibancadas e outras instalações esportivas, indicando que o clube avançava sobre uma área pública antes da formalização do acordo.
Como parte da negociação, o Fluminense assumiu a obrigação de demolir as estruturas erguidas sobre a faixa transferida à prefeitura e reconstruir a fachada do complexo esportivo.
A presença dos Guinle na futura Granja Comary aparece em outra escritura, assinada em abril de 1978.
No documento, Jorge Guinle, Luiz Roberto Guinle e Maria Thereza Guinle vendem à então CBD uma área de 53,9 mil metros quadrados em Teresópolis por 20 milhões de cruzeiros.
O terreno fazia parte da antiga Granja Comary e seria incorporado ao centro de treinamento que se transformaria na casa da Seleção (R$ 30,5 milhões).
O imóvel fica no bairro Carlos Guinle.




