Meses atrás, a arquiteta Amanda Ferber recebeu um convite inesperado.
A equipe de Barack Obama queria que ela fosse um dos quatro criadores de conteúdo que iriam conhecer em primeira mão o Obama Presidential Center, um edifício construído em Chicago e projetado pelo escritório nova-iorquino de Tod Williams e Billie Tsien.
A viagem foi reflexo de um trabalho que ela vem fazendo há 13 anos, quando ainda estava na faculdade e abriu um perfil no Instagram para postar projetos de arquitetura que admirava, quase como uma pasta de referências.
Nesse meio tempo, o Architecture Hunter cresceu e virou uma plataforma com mais de 3 milhões de seguidores (a maioria estrangeiros), o suficiente para se transformar num negócio que gera receita e do qual ela é CEO.
“Foi tudo muito despretensioso porque eu não tinha noção do quanto isso poderia se transformar num negócio de verdade. Eu gostava de postar, as pessoas gostavam do que eu compartilhava e o perfil foi crescendo,” ela disse ao Metro Quadrado.

Apesar de não ter sido uma jogada estratégica, o pulo do gato foi publicar em inglês. “Eu pegava projetos de referência de qualquer parte do mundo, por isso pensei: vou postar em inglês para que os autores desses projetos entendam o que eu estou falando deles.”
A curadoria revelava um apurado senso estético para arquitetura e design. À medida que os semestres avançavam, o número de seguidores também crescia.
Ela manteve o perfil ativo de forma anônima durante toda a graduação, incluindo o período em que estagiou no studio mk27, escritório do arquiteto Marcio Kogan.
Em 2017, antes de concluir o curso, o Architecture Hunter atingiu 1 milhão de seguidores. No Brasil, pouca gente sabia que o conteúdo era produzido aqui.
“A maioria das pessoas pensava que o perfil era um coletivo da Inglaterra ou da Dinamarca. Não sei de onde tiravam isso,” diz.
Em 2018, quando se formou, ela finalmente apareceu nos eventos da Semana de Design de São Paulo como fundadora do Architecture Hunter e surpreendeu muita gente.
“Eu tinha 23 anos, era super nova. O Architecture Hunter era, na época, o maior Instagram de arquitetura do mundo. Nunca ninguém iria imaginar que era feito por uma menininha do Brasil,” afirma.
Apesar da timidez inicial, ela logo começou a fechar acordos publicitários com marcas e a produzir conteúdo exclusivo sobre lançamentos e eventos do segmento. Porém, estabeleceu cedo a premissa da independência editorial: os projetos de arquitetura e interiores curados pela plataforma seguem como conteúdo orgânico.
“Não cobramos para postar projetos de arquitetos. Fazemos publi apenas para marcas. Isso é importante para manter a minha curadoria,” afirma.
Em 2020, Amanda começou a pensar em expandir: decidiu investir mais na produção de vídeos. Ela queria criar filmes de arquitetura capazes de aprofundar o olhar sobre cada projeto. Nesse movimento, conheceu seus dois sócios: Luiz Ferriani, head do Departamento de Audiovisual, e Matheus Gait, diretor de Negócios.
Com a ajuda dos dois, começou a traçar planos de longo prazo para o Architecture Hunter e a desenvolver iniciativas que extrapolam a plataforma digital.
O trio também formou uma equipe afinada de profissionais dedicados ao conteúdo, além de um departamento financeiro e comercial. Isso deu a ela o fôlego para conseguir permanecer focada na curadoria.
Sempre que é convidada para cobrir eventos, Amanda costuma incluir dias extras em suas viagens para visitar projetos interessantes, escritórios e arquitetos.
Construiu assim ao longo dos anos uma rede de relacionamentos com profissionais de diferentes países. Essa proximidade acabou abrindo portas não apenas para convites de exclusivas, mas também ajudou a gerar novos negócios.
“Somos uma mídia independente, então sempre tentamos aproveitar as oportunidades. Eu acho que, ao longo dos anos, a gente teve uma criatividade financeira. Nutrimos nossos relacionamentos com as marcas parceiras para viabilizar projetos importantes,” diz.
Em 2024, ela lançou o Architecture Hunter Awards, premiação internacional que reúne um júri estrangeiro estrelado com nomes como Piero Lissoni, Carlo Ratti, Tatiana Bilbao e Juan Ignacio Aranguren.
No ano passado, lançou também o Hunter International Forum, evento inspirado em muitos dos fóruns e congressos que Amanda frequenta ou é convidada para falar. A proposta é trazer grandes nomes da arquitetura internacional para palestrar em São Paulo.
Apesar da escala dessas iniciativas, todas foram financiadas pelo próprio Architecture Hunter. Amanda conta que o trio adota o modelo bootstrap, criando novos projetos sem recorrer a aportes externos.
A língua principal do Architecture Hunter segue sendo o inglês, e mais de 90% da audiência está fora do Brasil. A Europa responde por 25% dos seguidores, a Ásia por 22,5% e o Brasil por apenas 9,4%.
Ainda assim, 65% do faturamento da empresa vem de marcas brasileiras, contra 35% de companhias internacionais. A operação também vem ampliando suas fontes de receita com iniciativas como inscrições para o Architecture Hunter Awards e patrocínios do Hunter International Forum.
Embora os números já sejam expressivos, ainda há muito potencial a ser explorado, na avaliação do trio empreendedor.
Ao lado de Luiz e Matheus, Amanda segue cheia de ideias e buscando expandir a plataforma sem abrir mão da independência editorial — e do brilho nos olhos que deu origem ao Architecture Hunter.




