Garnero: ‘Achei que a Faria Lima seria uma Madison’

Garnero: ‘Achei que a Faria Lima seria uma Madison’
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Um dos primeiros empresários a construir uma torre corporativa na Faria Lima, Mario Garnero imaginou que a avenida iria se desenvolver de outra maneira.

Em vez de se tornar tão somente o endereço do mercado financeiro, a avenida poderia ter se tornado uma mistura de prédios de escritórios com lojas de marcas de luxo espalhadas pelas calçadas.

“Achei que poderia ser como a Madison de Nova York, mas acabou virando muito mais um centro financeiro do que comercial, e também um centro de decisão política,” ele disse ao Metro Quadrado no escritório da sua casa em Campinas, um espaço tomado por livros, imagens de santos e fotos de família.

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Aos 89, Garnero mora há 50 anos em Campinas, a cidade onde nasceu, depois de um período em São Paulo.

A decisão de retornar foi tomada após um médico recomendar que ele mudasse de ambiente para conseguir curar o filho Álvaro, que ainda era criança e tinha asma. Nunca mais voltou.

“Hoje eu prefiro ver passarinho comendo alpiste do que respirar o ar condicionado sujo de São Paulo,” ele disse por telefone, antes da entrevista, aos risos.

Mas Garnero ainda morava na capital, na Rua Frederic Chopin, em Pinheiros, quando surgiu a oportunidade de investir na recém-inaugurada Faria Lima, aberta em 1970, há 56 anos.

Àquela altura, o empresário já tinha um passado no setor automotivo, como diretor da Volkswagen e presidente da Anfavea; já havia fundado a sua BrasilInvest; e já investia em imóveis na Vila Olímpia, comprando casinhas para erguer empreendimentos.

A oportunidade na Faria Lima surgiu porque Adolpho Lindenberg, um dos grandes incorporadores da época, queria se desfazer de um terreno para fazer caixa e o ofereceu a Garnero.

O empresário topou, mas não tinha dinheiro. Foi então ao Bradesco e pediu um empréstimo prometendo pagar com o dinheiro da revenda dos espaços das duas torres que iria construir (Lindenberg já tinha feito a fundação), no chamado leasing, um produto ainda incomum.

Um tempo depois, um deputado ligado à comunidade mórmon de São Paulo ligou para Garnero agradecendo por ter comprado o terreno, porque ali havia uma igreja mórmon, que havia sido comprada por Lindenberg.

“Mas o Adolpho não tinha pagado. Quem pagou fui eu, porque ele pegou o meu dinheiro e pagou a igreja,” lembra o empresário.

E se hoje é moda fazer prédios com áreas de convivência, Garnero já queria naquela época fazer uma praça ao lado das suas torres para gerar um fluxo de pessoas, mas foi impedido pela resistência das agências bancárias, que achavam que o espaço poderia virar um foco de insegurança.

Sem a praça, as duas torres, que ele chama de “gêmeas”, ficaram prontos no início dos anos 1980, uma com 19 andares de 794 m² cada e outra com 18 de 725 m² cada.

Nos anos 90, quando Paulo Maluf ampliou a Faria Lima, dando início à chegada do mercado financeiro, uma das torres de Garnero atraiu um dos seus inquilinos mais robustos, o Goldman Sachs, um dos primeiros bancos estrangeiros a se instalar na avenida.

Era um momento em que as grandes instituições financeiras começavam a deixar a Av. Paulista, um movimento que Garnero atribuiu às gerações mais jovens.

“A Paulista virou o centro do velho dinheiro, enquanto a Faria Lima teve a habilidade de casar o velho com o novo,” ele disse. “O pessoal mais jovem deu esse dinamismo, criando uma comunidade de negócios.”

Antes, lembra, se alguém queria falar com o banqueiro Lázaro Brandão para fazer algum negócio com o Bradesco, tinha de ir até Osasco. “Agora eu tenho que ir na Faria Lima.”

A Faria Lima onde o mercado financeiro floresceu – na parte nova construída por Maluf – não é a do trecho onde estão as torres de Garnero (no cruzamento com a Rebouças), mas a escassez de espaço na nova Faria Lima já tem levado o mercado a olhar de novo para a parte antiga.

Pinheiros virou um destino para novos projetos corporativos, e na própria Rebouças a vacância já está perto de zero.

E o próprio Garnero disse que já está de olho em um terreno perto das suas duas torres, “se arrumar um dinheirinho”, mostrando um apetite que reforça sua vocação para o mercado imobiliário. “Eu gosto de imóveis, de tocar, de ver, de construir, é uma coisa sensorial.”

Mas uma volta para São Paulo segue descartada. Só vai ao escritório da BrasilInvest quando tem de receber alguém importante.

“Hoje é possível resolver tudo por esse telefoninho.”

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