Opinião/ O que cabe aos galpões para o Plano Nacional de Logística vingar

A publicação do Plano Nacional de Logística 2050 (PNL 2050) pelo Ministério dos Transportes recoloca o Brasil em uma agenda essencial: a do planejamento de longo prazo para um setor que sustenta a competitividade da economia.
O diagnóstico é conhecido, mas agora está sistematizado: 12 gargalos estruturais seguem limitando a eficiência do transporte de cargas, entre eles a dependência do modal rodoviário, a degradação da infraestrutura, a baixa integração entre modais e as desigualdades regionais.
Indicadores da Empresa de Planejamento e Logística (EPL) mostram que mais de 60% da carga no País ainda é transportada por rodovias.
Esse desequilíbrio eleva custos logísticos, que, segundo estimativas de mercado, representam de 12% a 13% do PIB brasileiro, acima de economias comparáveis, além de reduzir a previsibilidade das operações.
Em um país de dimensões continentais, eficiência logística depende, necessariamente, de uma matriz mais equilibrada e integrada.
O PNL 2050 aponta na direção correta ao priorizar corredores logísticos multimodais, pois trata-se de uma visão estruturante, que reconhece que infraestrutura logística não se constrói no curto prazo.
No entanto, há um componente dessa equação que ainda recebe menos atenção do que deveria: a qualidade da infraestrutura na ponta da cadeia.
Independentemente do modal utilizado, toda carga converge para um ponto físico de armazenamento, processamento e redistribuição.
É nesse momento que a eficiência planejada nos grandes corredores logísticos se traduz em produtividade real. E é justamente nesse elo que o Brasil ainda apresenta um déficit relevante de qualidade.
Hoje, apenas cerca de 20% do estoque de galpões logísticos no país é classificado como Classe A.
Isso significa que a maior parte das operações ainda ocorre em ativos com limitações de layout, baixa eficiência operacional, restrições à automação e inadequações de localização. Em um cenário de cadeias de suprimento mais dinâmicas, esse fator passa a ser determinante.
Estudos de consultorias globais como a McKinsey & Company indicam que melhorias na infraestrutura logística e armazenagem podem reduzir custos operacionais e aumentar significativamente a produtividade das cadeias de distribuição.
Esse ganho é ainda mais relevante em setores com alta intensidade logística, como varejo, e-commerce, indústria e agronegócio.
Além disso, há uma transformação estrutural em curso. A demanda por maior velocidade de entrega, previsibilidade e flexibilidade operacional tem levado à expansão de operações mais próximas dos centros de consumo e também à interiorização da malha logística, acompanhando novos polos produtivos.
Esse movimento pressiona por ativos mais modernos, bem localizados e capazes de suportar operações mais complexas, como fulfillment e distribuição fracionada.
Outro ponto relevante é o chamado flight to quality.
À medida que a eficiência logística se torna um diferencial competitivo, cresce a preferência por galpões com padrão construtivo elevado, infraestrutura robusta e capacidade de adaptação.
Ativos obsoletos tendem a perder relevância, mesmo em mercados com menor nível de maturidade.
Esse processo também tem impacto direto na redução das desigualdades regionais. A expansão de infraestrutura logística de qualidade fora dos grandes centros contribui para integrar mercados, reduzir custos de distribuição e ampliar o acesso a bens e serviços.
Em outras palavras, a infraestrutura para a logística também é um fator de desenvolvimento econômico.
O Plano Nacional de Logística 2050 acerta ao propor uma visão sistêmica para o setor. Mas sua efetividade dependerá da capacidade de articulação, especialmente nos segmentos que atuam na capilaridade da cadeia, afinal, corredores logísticos estruturam fluxos, enquanto infraestrutura na ponta viabiliza a operação.
Sem esse alinhamento, ganhos estruturais tendem a se dissipar ao longo da cadeia. O desafio está posto e, desta vez, com um plano claro sobre a mesa.
Sergio Fischer é CEO da Log.







