Faria Lima: como o urbanismo formou o centro financeiro

A Faria Lima não se tornou o principal centro financeiro da cidade por acaso.

A ampliação promovida nos anos 1990 pelo prefeito Paulo Maluf – que resultou na configuração atual – se deu após disputas políticas, mobilização de moradores e um longo processo urbanístico.
A proposta de expansão começou a ganhar forma em 1986, na gestão de Jânio Quadros, que convidou o arquiteto Julio Neves para repensar áreas estratégicas da cidade. Na época, a Faria Lima, inaugurada em 1970, há 56 anos, tinha um trajeto mais curto, que ligava o Largo da Batata à avenida Cidade Jardim.
Julio Neves idealizou ampliar a via, criando espaços para escritórios, bancos e outras empresas.
“Começou com o nome de Boulevard Zona Sul. Era justamente a extensão da Faria Lima até a Berrini, de um lado, e, do outro, até a avenida Pedroso de Morais. Jânio gostou muito do projeto e fizemos um estudo de viabilidade,” Neves disse ao Metro Quadrado.
A iniciativa buscava desafogar o trânsito e deslocar parte das instituições financeiras da avenida Paulista, que já estava sem espaço.
O plano, no entanto, não avançou durante aquela gestão, que durou apenas dois anos. Na sequência, a prefeita Luiza Erundina incorporou parte da proposta ao seu Plano Diretor, mas o texto não foi aprovado na Câmara de Vereadores. Foi só na administração de Maluf que o projeto recebeu aval para seguir.
Apesar do potencial econômico, a proposta encontrou forte resistência antes da aprovação da lei que instituiu a Operação Urbana, em 1995.
O traçado original previa desapropriações, com impacto direto sobre moradores e comerciantes dos bairros envolvidos: Pinheiros, Itaim Bibi e Vila Olímpia.
Ao mesmo tempo, a conexão com a avenida Hélio Pellegrino, aberta em 1992, ampliava ainda mais a escala da intervenção.
“Neste primeiro projeto, nós prevíamos mais de duas mil desapropriações. E desapropriação é a coisa mais difícil de se fazer em uma Operação Urbana. As pessoas têm um vínculo afetivo com o lugar onde moram. Não é só sobre dinheiro,” lembra Neves.
Os bairros, na época, tinham perfil majoritariamente residencial, o que intensificou a reação da população.
Associações de moradores de Pinheiros e Vila Olímpia se mobilizaram e convidaram o arquiteto Siegbert Zanettini, professor da FAU-USP, para representar o movimento. Seu próprio escritório, na Vila Olímpia, estava na rota de desapropriações.
“O processo de desapropriação era bastante violento porque as pessoas eram desalojadas e podia demorar anos, às vezes décadas, para receberem o valor de seus imóveis,” Zanettini disse ao Metro Quadrado.
Segundo o arquiteto, a mobilização, que começou em 1993, trouxe mudanças importantes na condução do processo por parte dos órgãos públicos
“O que conseguimos foi melhorar as condições para os moradores: as pessoas só saíram depois de receber à vista o valor de mercado por seus imóveis,” afirmou. “A imprensa esteve do nosso lado. Meu escritório virou o ponto central do movimento por quase quatro anos.”
Os moradores também pressionaram por ajustes no novo traçado da avenida para preservar algumas ruas residenciais e impedir a descaracterização do bairro.
“O desenho final da Faria Lima é consequência do nosso movimento. Não éramos contra a ampliação do trajeto da avenida, mas queríamos evitar que a Operação Urbana destruísse Pinheiros, Itaim Bibi e, principalmente, a Vila Olímpia,” conta Zanettini.
Diante dessas demandas da população, Neves e sua equipe revisaram o projeto. Eles reduziram o número de desapropriações para minimizar impactos nos bairros e alteraram o percurso da avenida. O projeto também previu conexões viárias, como alças de acesso e os túneis Max Feffer e Fernando Vieira de Mello.
“Definimos esse perímetro e trabalhamos nas ligações para integrar a avenida a outras vias importantes,” afirma. “Houve também um esforço político para explicar o projeto, que acabou aprovado por unanimidade na Câmara de Vereadores,” disse Neves.
As críticas também estavam ligadas ao efeito econômico da operação, que previa a valorização imobiliária da região – processo que contribuiu para consolidar a Faria Lima como o centro financeiro da capital.
Foi nesse contexto que surgiram os CEPACs (Certificados de Potencial Adicional de Construção), títulos emitidos pelo município que permitem construir acima dos limites de zoneamento em áreas de Operação Urbana.
Segundo Neves, esta foi uma sugestão de seu escritório, baseada em modelos internacionais, para garantir a captação de recursos que financiasse as intervenções propostas.
“O Estatuto da Cidade, de 2001, aproveitou muitas dessas soluções que pensamos na época. Mudamos a forma de fazer projetos desse tipo em São Paulo,” afirmou Neves.
Ao longo das décadas seguintes, a Operação Urbana continuou orientando intervenções na região. A requalificação do Largo da Batata, iniciada nos anos 2000, também fez parte dessas melhorias.
A nova Operação Urbana Consorciada Faria Lima teve leilões de CEPACs em 2025 e, desta vez, os recursos devem ser destinados a melhorias de habitação, saneamento e equipamentos públicos em Paraisópolis.
As visões sobre esse legado, no entanto, são divergentes. Enquanto a avenida se consolidou como um modelo de desenvolvimento urbano para o mercado, há quem aponte os impactos na paisagem da cidade.
Zanettini, que mantém seu escritório na Vila Olímpia, agora em outra rua, avalia que a transformação foi profunda na região. “Praticamente não há mais casas no bairro. O que não é escritório é serviço para quem trabalha nesses prédios, como restaurantes e farmácias,” disse.
O arquiteto segue crítico ao modelo de ocupação que se consolidou após a ampliação da Faria Lima – e que acabou se estendendo para outras áreas da capital.
“O que vemos hoje na cidade de São Paulo é o empilhamento de monstros verticais. A cidade trava porque o sistema viário continua o mesmo de décadas atrás e não suporta esse volume acrescido de pessoas,” disse. “Eu não considero progresso, acho que estamos vivendo um desmonte da cidade,” afirmou.
Já para Julio Neves, a consolidação da avenida como o maior polo financeiro da cidade confirma a aposta feita ainda nos anos 1980. “Nós, arquitetos, vivemos de sonhos. E esse projeto serviu como modelo. Hoje, a Faria Lima é a avenida mais moderna e valorizada do País.”
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